São Paulo - As vendas do Dia das Mães, segunda data mais importante para o varejo, cresceram este ano entre 1,6% e 2%, segundo indicadores da Boa Vista SCPC e da Serasa. Apesar do resultado ser um tímido sinal da retomada, os dados sobre as vendas a prazo, que caíram 5,5%, ainda apontam para um cliente cauteloso com o futuro.



Nos dois levantamentos, divulgados ontem (15), o resultado positivo veio após dois anos consecutivos de queda. No estudo da Serasa Experian, o setor tinha recuado 8,4% na data de 2016, frente ao ano anterior, e 2,6% em 2015, também na comparação interanual. "É uma reação importante e mostra que o consumo começa a dar sinais de vida", diz o economista da Serasa, Luiz Rabi.



De acordo com ele, o resultado se deu por conta da queda da inflação, dos juros na ponta e da injeção dos recursos do FGTS. Mesmo assim, o setor varejista ainda está longe de recuperar a queda vista nos últimos anos e voltar ao patamar de 2014.



"Não vai voltar tão cedo, mas pelo menos já mudou de rumo. A direção que era negativa virou positiva", afirma. A pesquisa analisou as vendas entre os dias 8 e 15 de maio e comparou com o período equivalente do ano passado (2 a 8 de maio). Em relação ao resultado apenas do município de São Paulo, o estudo mostrou um avanço maior, de cerca de 3,3%.



No levantamento da Boa Vista SCPC, que considerou as vendas entre os dias 8 e 14 de maio, o avanço foi de 1,6% este ano, depois de um recuo de 4,6% em 2016, e de 1,2% em 2015. A empresa também creditou o resultado a retração da inflação e a tendência de uma queda maior dos juros.



O presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar), Claudio Felisoni, pondera que o crescimento na data era esperado "considerando a queda sistemática das vendas vista durante um período muito longo e da atual condição mais favorável ao consumo - com a desaceleração da inflação e a queda dos juros ao consumidor."



Já o sócio-diretor da consultoria GS&Consult, Jean Paul Rebetez, afirma que o resultado representa um 'respiro' para o setor, mas diz que o Dia das Mães deste ano ainda foi de muita cautela. "As compras este ano foram muito calcadas no pagamento à vista e com um tíquete médio baixo. Devido à uma falta de visibilidade concreta sobre o futuro o consumidor ainda não quer se arriscar e se endividar", diz.



Vendas a prazo



Nesse cenário, as vendas parceladas viram uma retração de 5,5% na data comemorativa deste ano, segundo levantamento do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). A pesquisa levou em conta as vendas realizadas entre os dias 8 e 14 de maio, frente a semana equivalente do ano passado.



O resultado representa a quarta retração consecutiva das vendas a prazo do Dia das Mães, que já tinham caído 16,4% em 2016 e 0,59% em 2015 (veja mais no gráfico). "Os consumidores estão mais preocupados em não comprometer o próprio orçamento com compras parceladas, por isso optaram por presentes mais baratos e geralmente pagos à vista", afirmou, por meio de nota, o presidente da CNDL, Honório Pinheiro.



Além do receio de comprometer o orçamento, a perspectiva de um recuo maior dos juros na ponta é outro fator que inibe o consumidor a comprar a prazo neste momento, de acordo com Rebetez. "Os juros devem cair mais do que já caíram até agora. Quem é esclarecido não vai se comprometer com um juros a 18%, vai esperar o juros cair ainda mais."



Recuperar margens



O diretor da GS&Consult afirma também que outro fator importante a ser levado em conta é que, mais difícil do que recuperar o volume de vendas, é recuperar as margens.



"Às vezes esse crescimento se deu com margens sacrificadas. Ainda tem muito para recuperar de volume, mas mais difícil do que isso é ter vendas com margens saudáveis. E essa recuperação de margem, de valor agregado, demora um pouco mais", afirma Rebetez.



Sobre o impacto do resultado do Dia das Mães na perspectiva para o desempenho do varejo no consolidado do ano, o executivo diz que não altera muita coisa. "Sinaliza, dá uma luz, mas precisa de mais consistência para ter mudança."



O presidente do Ibevar, Claudio Felisoni, também aponta que o desempenho da data comemorativa não interfere nas previsões do instituto. O Ibevar prevê, de acordo com ele, um crescimento para o consolidado de 2017, mas que ainda deve ser muito tímido, não ultrapassando o 1%.