São Paulo - O Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou, ontem, um corte de 0,5 ponto percentual na taxa básica de juros. Com isso, a Selic recuou para 7% ao ano, menor patamar da série histórica do Banco Central (BC).

Em documento divulgado no final da tarde, os membros do colegiado indicaram que é "adequada uma nova redução moderada na magnitude de flexibilização monetária", sinalizando um possível novo corte dos juros na próxima reunião do comitê, marcada para fevereiro.

"Esse comunicado do Copom direciona as expectativas do mercado para uma Selic em 6,75% ao ano", afirmou Mauricio Molon, economista-chefe do Santander.

Com o corte de ontem, a taxa básica de juros ficou abaixo do patamar dos 7,25% ao ano, visto em 2012, o mais baixo do passado recente. "Essa é a menor taxa dos últimos 60 anos e ela deve permanecer em um nível baixo por bastante tempo", afirmou Molon. Na visão dele, a inflação não deve sair de um nível confortável tão cedo.

Também no comunicado, os diretores do BC afirmaram que o estágio do ciclo monetário exige "cautela" e voltaram a colocar a "frustração" com a reformas entre os principais riscos para a trajetória do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Por outro lado, o comitê repetiu as avaliações de que o cenário externo é favorável, a inflação está sob controle e os indicadores econômicos apontam para a "recuperação gradual" da atividade no País.

Incerteza em 2018

No último relatório Focus, divulgado segunda-feira pelo BC, os analistas de mercado já apostavam em um novo corte da taxa de juros, de 0,25 ponto percentual, na próxima reunião do Copom. Entretanto, especialistas consultados pelo DCI afirmaram que alguns fatores podem impedir essa redução da Selic em 2018.

Para José Pena, economista-chefe da Porto Seguro Investimentos, o fracasso da reforma da Previdência, o aquecimento da demanda interna e a elevação dos juros pelo banco central americano estão entre os fatores que poderiam elevar a inflação. "Se a reforma não for aprovada, a chance de os juros caírem mais será reduzida", indicou.

Pena também citou a eleição presidencial brasileira como uma possível causa de instabilidade. "Teremos incertezas políticas, em relação ao processo eleitoral, e jurídicas, sobre a viabilidade da participação de alguns candidatos", disse o entrevistado.

Já Virene Matesco, professora de MBAs da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirmou que os preços de alimentos, que recuaram durante 2017, devem ganhar força no ano que vem. "A safra agrícola será pior em 2018 e a base de comparação atual é baixa, o que favorece o avanço da inflação."

Sobre o cenário externo, ela disse que não há grandes riscos, mas ponderou que o "comportamento bélico" de Donald Trump pode tirar a calma do mercado. "Se for iniciado um conflito na Palestina ou na Coreia, a situação poderá ficar mais complicada."

Repercussão

Após o anúncio da decisão dos diretores do BC, diversas instituições se posicionaram em relação ao novo patamar da taxa básica de juros brasileira.

"Selic vai a 7%, seu valor mais baixo, mas ainda precisa cair mais", avaliou Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Ele também defendeu que o recuo da taxa seja acompanhado por um aumento da oferta de crédito e a redução do spread bancário.

Já a Força Sindical considerou "extremamente tímida" a queda da Selic. "Mais uma vez o Banco Central frustra os anseios dos trabalhadores."

Por outro lado, Alencar Burti, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) considerou "correta" a decisão do Copom. "O próximo passo agora é recuperar a produção e o emprego", indicou ele.

O comunicado do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) trouxe a avaliação de que o cenário para a Selic no próximo ano é incerto. "Com as incertezas de um ano eleitoral, ainda restam dúvidas."

Os bancos privados, por sua vez, promoveram novos cortes nos juros das linhas de crédito. O Itaú Unibanco, por exemplo, reduziu a cobrança sobre o empréstimo pessoal, com a taxa mínima, passando de 2,19% para 1,48% ao mês.