São Paulo - O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, ontem, reduzir a taxa básica de juros (Selic) em 0,75 ponto percentual, o maior corte em cinco anos. Após escolha unânime, que superou as expectativas do mercado, a Selic foi reduzida para 13% ao ano.

Em nota divulgada pelo Banco Central (BC), os membros do comitê ainda indicaram "o estabelecimento de um novo ritmo de flexibilização" na taxa de juros. Isso porque o processo de desinflação ganhou força e a atividade econômica do País segue com desempenho "aquém do esperado".

Para Tatiana Pinheiro, economista do Santander, o comunicado aponta cortes da mesma magnitude nas próximas reuniões do Copom. "Devemos ter mais reduções de 0,75 ponto [percentual]".

Já Silvio Paixão, professor de economia da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), destacou o impacto do recuo nos preços para a escolha do Copom.

"O BC está vendo que alimentos e serviços, os principais motores da inflação, estão contidos e não devem acelerar nos próximos meses, já que a demanda deve continuar fraca, pelo menos no primeiro trimestre deste ano", avaliou.

No documento, os diretores do BC afirmaram que "a inflação recente continuou mais favorável que o esperado". Eles também sinalizaram que "há evidências de que o processo de desinflação mais difundida tenha atingido também componentes mais sensíveis à política monetária e ao ciclo econômico".

Em mais de um momento, o colegiado do Copom destacou o desempenho ruim da economia, o que favoreceria uma redução maior da Selic. "A evidência disponível sinaliza que a retomada da atividade econômica deve ser ainda mais demorada e gradual que a antecipada previamente."

Por outro lado, foram apresentados riscos para a trajetória dos preços no curto prazo: o "alto grau de incerteza" no cenário externo, a resiliência de "alguns componentes" da inflação e dúvidas quanto ao processo de aprovação e implementação das reformas que compõe o ajuste fiscal.

Paixão destacou a ressalva dos diretores em relação do cenário externo, que seria motivada pela eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.

"Ainda existe uma incerteza internacional sobre o que Trump fará quando assumir a presidência. Mesmo assim, a taxa de juros do Brasil continua bastante acima das demais no mundo, que estão baixas ou até negativas", comparou o especialista.

A favor

A decisão dos diretores do BC foi elogiada por especialistas entrevistados pelo DCI.

"Nos últimos meses, o Copom estava pecando por excesso de cuidado. Já havia espaço para um corte maior nos juros", disse Mauro Rochlin, professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV).

No final do ano passado, os diretores do BC realizaram as duas únicas reduções da Selic - ambas de 0,25 ponto percentual - durante a gestão de Ilan Goldfajn, presidente do banco desde junho de 2016.

Para ele, a recessão econômica e a desaceleração dos índices de preço justificam uma ação menos conservadora por parte do comitê. "O que restou da inflação é causado por custos e não pela demanda", completou o entrevistado.

Professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), José Luís Oreiro seguiu a mesma linha.

"Era possível reduzir em até um ponto percentual a taxa Selic", defendeu ele. "Na prática, com a queda da inflação, o juro real aumentou nos últimos meses. Isso complica a retomada econômica."

Após o corte de ontem, a Selic real ficou abaixo dos 7% ao ano. "Se essa taxa estivesse em 5,5% ao ano, seria o suficiente para conter os índices de preços", indicou Oreiro.

Repercussão

Várias instituições se manifestaram depois da divulgação do corte na taxa de juros.

Para a FecomercioSP, o Copom acertou ao intensificar o corte na taxa de juros. "As dúvidas sobre o ambiente político estão sendo reduzidas e os indicadores de inflação continuam a mostrar quedas."

Já Paulo Skaf, presidente da Fiesp, disse que a redução de 0,75 ponto percentual "é um primeiro passo para a retomada do crescimento econômico e geração de empregos que o Brasil precisa".

Presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Alencar Burti, também afirmou que o Copom acertou em sua decisão. "Aparentemente, ele [o BC] se sente seguro em perseguir uma política de recuperação da atividade econômica e do emprego mais intensa", avaliou.

A redução da Selic também levou o Bradesco a diminuir as taxas de juros de suas principais linhas de crédito para pessoas físicas e jurídica. "A medida acompanha a decisão do Comitê de Política Monetária Copom", justificou o banco, em nota. A linha de crédito pessoal, por exemplo, teve sua taxa mínima reduzida de 2,84% para 2,78% ao mês.