São Paulo - Foi em parceria com pesquisadores brasileiros que o canadense Howard Weinstein desenvolveu baterias recarregáveis com energia solar e, assim, tornou mais acessível a manutenção do aparelho auditivo produzido pela Solar Ear.

Este é o nome da empresa que ele criou no Brasil com base em modelo de negócio social iniciado na África. A ideia de trazer o projeto ao País partiu de dois professores de fonoaudiologia da Universidade de São Paulo (USP), após conhecerem a iniciativa em continente africano. Desse contato surgiu a parceria com o Instituto Cefac, que adequou a tecnologia para o recarregamento da bateria também por luz de lâmpada comum.

Basta colocar o carregador junto a uma janela onde haja luz ou sob uma lâmpada. As baterias devem ser recarregadas uma ou duas vezes por semana e podem ser usadas em 80% dos aparelhos auditivos do mercado. Com isso, o custo de manutenção pelo usuário cai drasticamente. A recarregável custa R$ 4 e dura de dois a três anos. A convencional custa R$ 2, mas dura, em média, apenas uma semana.

Os valores podem parecer pequenos, mas fazem diferença nas comunidades que a Solar Ear pretende atingir. Especializada no desenvolvimento de aparelhos auditivos de alta tecnologia, a empresa capacita e emprega pessoas com deficiência auditiva. Acostumados a utilizar as mãos para se comunicar por meio da Língua Brasileira de Sinais (Libras), os funcionários têm grande habilidade para soldar microcomponentes eletrônicos.

Assim, com um processo produtivo enxuto e que valoriza a inclusão, a empresa mantém os custos sob controle, condição essencial para seu modelo de negócio social. Os componentes para a montagem vêm dos mesmos fornecedores utilizados por outras fabricantes. A diferença é que, ao invés de investir em funcionalidades adicionais que possam aumentar a margem de lucro, como as proporcionadas pela tecnologia Bluetooth, por exemplo, a Solar Ear concentra-se na essência do mecanismo que melhora a audição. A lógica é semelhante à dos medicamentos genéricos: utilizar a tecnologia de base na concepção do projeto, para garantir produtos mais acessíveis.

Segundo Weinstein, as margens de lucro da Solar Ear são mais baixas dada a sua missão, que é fazer com que todas as crianças com algum distúrbio de audição recebam um aparelho até os três anos de idade, para que possam aprender a se comunicar e se desenvolvam adequadamente. O eventual lucro da operação é reinvestido no negócio.

Weinstein planeja abrir mais dez operações no mundo todo dentro de cinco anos. A tecnologia não foi patenteada - a ideia é que seja um incentivo para outras empresas reproduzirem o processo e atingirem mais pessoas.

Um aparelho auditivo analógico de mercado custa cerca de R$ 1 mil; o da Solar Ear sai por R$ 225. O preço comum de um digital é R$ 3 mil; a versão da empresa custa R$ 372 para perda auditiva moderada e até R$ 850 para perda severa.

Desde a criação do projeto, foram vendidos cerca de 20 mil aparelhos auditivos, 40 mil carregadores solares e mais de 100 mil baterias recarregáveis.

Da empresa para a startup

Nos anos 90, Weinstein trabalhava como executivo no Canadá, quando sua filha Sarah, de 15 anos, morreu de aneurisma cerebral. Uma semana depois, foi demitido. "Para eles eu não tinha estrutura emocional para trabalhar e não daria mais lucro", afirma. "De certo modo estavam certos: eu me sentia completamente perdido", desabafa.

Depois de um longo período, abriu uma empresa de assentos sanitários eletrônicos para deficientes, mas o negócio não deu certo. Decidiu recomeçar como voluntário na África. Em Otse, Botswana, foi procurado por um professor e uma aluna com deficiência auditiva severa, que também se chamava Sarah. "Quando ouvi seu nome, soube que aquele era o lugar onde eu deveria estar", conta.

Sem conhecimentos sobre audiologia, consultou especialistas em eletrônica, conversou com fabricantes, atraiu investidores e angariou recursos para abrir a ONG Godisa Technologies, na África, que foi precursora de sua atual empresa. Em 2011, decidiu se estabelecer no Brasil e abrir a Solar Ear.