SÃO PAULO - O desenvolvimento de aplicativos relacionados a política e eleições é um nicho de onde podem brotar algumas startups, embora muitos desenvolvedores ainda não vejam essa atividade como um negócio.



Movidos por idealismo e criatividade, cada um se organiza a seu modo para fazer e manter ferramentas como "Voto x Veto" e "Ficha Suja", cada uma com 150 mil downloads. Alguns usam dinheiro do próprio bolso, outros fazem "vaquinhas" online - e há aqueles que, para iniciar uma empresa, preparam planos de negócios e buscam investidores.



É o caso do gaúcho Deivison Servat, um dos criadores do "Acordei". O aplicativo permite acessar no celular declarações de bens, certidões de antecedentes criminais e despesas de campanha dos candidatos.



Servat conta que a visibilidade conquistada pelo app abriu portas para projetos remunerados. E os mais de 70 mil downloads até o primeiro turno animaram o desenvolvedor a criar uma startup para acompanhamento dos eleitos. "Tenho planos, mas preciso achar investidores. Tive um gasto de aproximadamente R$ 16 mil e pago cerca de R$ 4 mil para manter o aplicativo funcionando", contou o programador, que se formou no ano passado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas. "Em breve teremos publicidade para pagar o custo mensal", afirmou.



A estratégia é diferente da adotada por Diego Aranha. Ele recorreu ao Catarse, um site de crowdfunding (financiamento coletivo). Assim, levantou R$ 30 mil para desenvolver o "Você Fiscal", ferramenta colaborativa para monitorar a apuração - o eleitor fotografa os boletins das urnas e o app faz o cômputo daqueles votos. O monitoramento é paralelo à apuração do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que lançou seu próprio app para acompanhamento da contagem.



O criador do "Voto x Veto", que apresenta propostas de candidatos na tela do celular, seguiu outro caminho. O apelo está no engajamento: o app mostra propostas anônimas, para que o usuário dê seu veredito - concorda ou discorda? Só então a ferramenta revela o autor. E faz um ranking de candidatos com mais propostas que agradaram o usuário.



Perto da votação



Criado pelo estudante do ITA Walter César Nogueira, o "Voto x Veto" teve um pico de downloads no início de outubro, véspera do primeiro turno. "Foram 12 milhões de avaliações, com crescimento nos três dias que antecederam a votação", disse ao DCI.



Professor da Universidade Católica de Brasília e criador do app "Ficha Suja", que lista candidatos com pendências na Justiça, Maurício Júnior também criou sua ferramenta sem nenhum suporte financeiro. "Procurei fazer grátis e sem propaganda. Não busquei rentabilidade e não gastei nada para desenvolvê-lo", afirmou.



O objetivo do professor é diferente do que busca o mineiro Lucas Marques. Em março, ele abandonou seu emprego em uma grande empresa para se aventurar como empreendedor digital. Com dois sócios, criou o Projeto Brasil, startup baseada em um site de acompanhamento de eleições. O carro-chefe é um duelo entre propostas de adversários - aqui, os autores das ideias são identificados. Segundo Marques, mais de 1 milhão de comparações já foram feitas por meio do site. "Mas precisamos de investidores. Ainda há um problema para definir nosso modelo de negócios", disse.



O Projeto Brasil também criou o "Quem Financia", que lista empresas financiadoras dos candidatos sempre que o nome de um deles surge no navegador do usuário. O projeto venceu a Hackhaton Transparência Brasil, maratona hacker realizada em agosto pela ONG Transparência Brasil.



Oportunidades



Luiz Piovesana, consultor da Sensedia Company, vê boas razões para empreendedores apostarem no nicho. O apelo social, por estar relacionado ao exercício da cidadania, é uma delas. Outra, é a possibilidade de tornar viável um plano de negócios tendo a publicidade como fonte de receita.