São Paulo - A forte retração de 86,2% nos embarques de café conilon (robusta) no ano passado, devido a seca nas plantações, provocou queda de 8,1% nas exportações totais do grão brasileiro ante 2015. Com isso, a fatia do País nas vendas globais voltou ao nível de 2012.

De acordo com balanço do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), divulgado ontem, a participação do Brasil no consumo mundial recuou de 32% para 29% no último ano. O menor patamar desde 2002 havia sido registrado em 2012, quando a fatia brasileira no consumo global chegou a 25,7%.

No mundo, o consumo de café somou 151,3 milhões de sacas de 60 quilos em 2015, conforme a Organização Internacional do Café (OIC).

"O conilon foi o grande responsável pela queda", afirma o presidente do Cecafé, Nelson Carvalhaes. Fornecedores como Vietnã e alguns países africanos podem ter absorvido esta fatia perdida pelos brasileiros. Na verdade, "o Brasil não conseguiu competitividade para exportar [tanto] com os preços praticados internamente [após a quebra]", avalia o dirigente.

Para 2017, a expectativa preliminar do Cecafe é de manutenção nos volumes embarcados em 2016, mesmo diante de projeções de mercado que indicam baixa para a produção por conta do ciclo de bienualidade negativo na cultura, temporadas em que tradicionalmente a colheita é inferior. "Ainda é cedo para dizer, mas acredito em um cenário muito parecido. Temos boas chances de repetir 2016", diz Carvalhaes. Oferta, demanda e câmbio são os três fatores que limitam estimativas mais concretas.

Balanço

Ao todo, foram embarcadas 34 milhões de sacas, contra as 37 milhões enviadas em 2015. A receita cambial e o preço médio também amargaram no negativo, com quedas respectivas de 12,3%, para US$ 5,4 bilhões, e 4,5%, para US$ 158,68 por saca. O desempenho só não foi pior porque, na contramão, a commodity do tipo arábica marcou recorde de vendas externas, com 29, 56 milhões de sacas, ganho de 1,2%. No caso do conilon, os números recuaram de 4,2 milhões de sacas para 580 mil.

"No passado, o Brasil tinha estoques maiores que facilitavam a negociação de exportações, mas esses estoques foram se exaurindo. No segundo trimestre do ano passado foram embarcadas 7,4 milhões de toneladas, contra 8,8 milhões no mesmo período do ano anterior já em reflexo da seca e redução na oferta na entressafra. A safra entrou em maio e veio o efeito negativo no conilon", explica Carvalhaes. "Se não fosse esse problema, certamente bateríamos o recorde de 2015", acrescenta o diretor técnico do Cecafé, Eduardo Heron.

Industrialização

Conforme o Cecafé, o destaque no ano passado ficou por conta do avanço nos embarques dos produtos industrializados, amplamente dependentes do grão conilon - no caso dos solúveis - e que tive crescimento mesmo com crise.

Dados apresentados ontem mostram que os embarques do produto torrado e moído tiveram acréscimo de 1,3%, para 29,2 mil sacas embarcadas, enquanto o solúvel subiu 7,8%, a 3,8 milhões de toneladas. Agora, para manter os mesmos níveis de expansão, a indústria brasileira busca a aprovação para a entrada de grãos verdes do concorrente Vietnã para compor a oferta de robusta.

"O solúvel está crescendo no mundo, acho que o Brasil poderá manter sua performance", comenta o presidente do Cecafé. Sobre as compras externas, ele diz que o conselho é favorável ao livre mercado.

Na ponta compradora, ficou claro que os russos entraram fortemente no segmento de industrializados brasileiros. Na comparação anual, as importações da Rússia saltaram 18,6%, ao atingir o correspondente a 972,4 mil sacas.

Em seguida, os japoneses tiveram aumento de 2,54% nas compras, mas aqui os executivos destacam que trata-se de produtos premium.

Do outro lado, os Estados Unidos marcaram retração de 17,6%, mas ainda assim continuam na liderança como principal parceiro comercial do Brasil, com 19% de representatividade nas importações do grão brasileiro.