São Paulo - Os cinco maiores bancos do País tendem a reforçar a busca por não-correntistas e aumentar a oferta de crédito a bons pagadores pessoa física em 2018. O movimento seria para tentar reduzir a pressão no lucro trazida pela demanda ainda limitada e juros menores.

De um lado, a busca pelo não-correntista, prática já antiga no mercado, deve se intensificar ante cenário de demanda ainda fraca, priorizando, principalmente, bons pagadores.

"O intuito sempre é expandir. Queremos novos clientes e isso faz parte do mercado. A dinâmica continua, e a prática é fazer oferta boa se o cliente traz a conta corrente e mostra fidelidade ao banco", avalia o superintendente executivo de produtos de crédito à pessoa física do Santander, Eduardo Jurcevic.

Ao mesmo tempo, os executivos dos bancos reiteram que a adequação de processos e produtos nos últimos dois anos - tanto em relação à maior agilidade tecnológica com o surgimento de fintechs, como quanto às taxas e prazos cobrados -, devem colaborar para a retomada mais forte na demanda por crédito.

"Conseguimos resultados bastante relevantes, já que reduzimos a necessidade de o cliente ir em uma agência, por exemplo, e diminuímos o prazo de liberação da contratação do crédito no mobile de 60 para 20 dias. É caminhar para sofisticação digital, para a atração de clientes", comenta o diretor de empréstimos, financiamentos e crédito imobiliário do Banco do Brasil (BB), Edson Cardozo.

Mesmo com a melhora nas concessões de crédito já despontando nas cinco maiores instituições financeiras do País (Banco do Brasil, Bradesco, Caixa, Itaú Unibanco e Santander), no entanto, a demanda ainda fraca e a taxa básica de juros (Selic) menor podem pressionar o lucro das instituições no primeiro semestre de 2018.

De acordo com os balanços do segundo trimestre de 2017, três dos cinco bancos trouxeram resultados positivos na carteira de crédito na comparação com igual período de 2016. A maior alta veio do Bradesco, com avanço de 10,2%, de R$ 447,5 bilhões para R$ 493,6 bilhões.

Em seguida vieram Santander (+5,1%), de R$ 244,3 bilhões para R$ 256,8 bilhões, e Caixa (+3,5%), de R$ 691,6 bilhões para R$ 715,9 bilhões.

Já o BB caiu 7,5% na mesma comparação, de R$ 753 bilhões para R$ 696,1 bilhões, seguido por Itaú (-3,6%), de R$ 498 bilhões para R$ 479,9 bilhões.

"Se as operações não crescerem e as taxas de juros permanecer nesse patamar, isso com certeza deve desembocar na rentabilidade dos bancos e proporcionar um ROE [do inglês, Retorno Sobre Patrimônio] menor", explica o analista bancário da Planner Corretora Vitor Martins e acrescenta que mesmo com a tentativa dos bancos em aumentar o retorno do crédito, os empréstimos não serão tão fortes quanto o esperado.

"As garantias ainda serão necessárias para que as concessões sejam feitas e não será qualquer preço para qualquer pessoa ou empresa. A busca do share deixou de ser um foco há muito tempo para dar lugar à rentabilidade", completa.

Para o diretor executivo do Itaú Unibanco, Wagner Sanches, mesmo com a desaceleração da demanda de crédito pelos últimos dois anos, atribuídos ao clima "de incerteza", a maior confiança do consumidor já começa a trazer melhora do mercado no segundo semestre deste ano.

"Estamos saindo de uma curva de diminuição e estabilidade para uma tendência de crescimento. Tivemos dois trimestres seguidos de crescimento econômico que, juntamente com a redução do desemprego e as sucessivas reduções das taxas de juros e, ao que tudo indica, o ambiente é favorável para a manutenção desse crescimento sustentável em 2018", pondera o diretor.

Composição de lucro

Os analistas consultados pelo DCI, porém, destacam que outro ponto de atenção é a composição de lucros do resultado dessas instituições.

De acordo com o analista da agência de classificação de risco Fitch Ratings Claudio Gallina, mesmo com a perspectiva positiva da economia, os sinais ainda são muito baixos para trazer crescimento nas carteiras desses bancos e, neste sentido, a necessidade em manter o lucro mais focado em receita de tarifas e serviços, tende a persistir ao longo do ano que vem.

"Ainda mantemos a perspectiva negativa para o setor financeiro e acho muito difícil mudar esse cenário em 2018. Há um ou outro ponto de melhora, mas não conseguimos ver o crédito subindo porque, mesmo com crédito na mesa, ainda há ressalvas na tomada de recursos", analisa Gallina, da Fitch.

Já para Martins, da Planner, o problema desse cenário mais voltado em tarifas e serviços é que "há um limite" de atuação, ainda mais em um ambiente de baixos empréstimos e rentabilidade da tesouraria reduzida com a menor taxa de juros.

"Há um espaço limitado de aumento de tarifas. Como esse movimento foi intensificado nos últimos anos, a tendência é diminuir, principalmente porque não há como tirar lucro disso para sempre", afirma.

Segundo Gallina, porém, a situação dos bancos não é "problemática" e mesmo pressionados, o lucro dos bancos ainda deve "andar de lado". "A composição deve se manter por um tempo, mas não se perpetua, principalmente porque essas instituições não cobrarão menos em tarifas se o crédito voltar. A tentativa de alavancar empréstimos vai existir, mas é o equilíbrio nos resultados que deve prevalecer", conclui.

Linhas em destaque

Nesse cenário, a aposta do sistema financeiro começa a destacar as principais linhas de curto prazo tanto para os consumidores, quanto para as empresas.

Segundo Cardozo, as taxas de juros mais baixas, como a recuperação do nível de emprego e a demora no aumento dos preços dos imóveis a patamares antigos, devem influenciar positivamente a demanda por financiamentos imobiliários nos próximos 12 meses.

"É um momento muito positivo e, desde abril, já vivemos um aumento superior a 40% no crédito imobiliário, cenário que traz uma expectativa de um crescimento não tão exponencial, mas bastante sustentável", afirma o executivo.

Além disso, Jurcevic sinaliza a tendência de que o crédito consignado e para veículos continuem sendo os destaques nos financiamentos às pessoas físicas, tanto pelas condições de prazos e taxas como pela retomada do consumo.

"Com a confiança e a melhora nos indicadores econômicos, os clientes que postergaram a tomada de recursos para reorganizar o orçamento e equalizar suas contas, começam a voltar ao mercado. O ano que vem tem tudo para ser bastante positivo para o crédito", diz Jurcevic.

Do lado das pessoas jurídicas, por sua vez, a aposta das instituições financeiras é em investimentos de curto prazo e para gestão de caixa, como linhas capital de giro e antecipação de recebíveis, por exemplo.

"As operações diárias já aumentaram cerca de 50% para as empresas desde o começo do ano e, mesmo com 35% de capacidade ociosa nas empresas do País, há bastante sensibilidade à sazonalidade de final de ano, o que deve trazer um fôlego considerável", explica o diretor de micro e pequenas empresas do BB, Edmar Casalatina.

Ele pondera, ainda, que com a maior estabilidade da economia e a perspectiva de condições que possibilitem a melhora da inadimplência, o mercado também deve demonstrar uma demanda maior por investimentos no ano que vem.

"A empresa que sobreviveu já começa a sinalizar um cenário mais favorável para financiamentos e isso é muito positivo. Nossa perspectiva é que o crédito cresça perto dos 5% em 2018, em linha com a economia", complementa Casalatina.

Contatados pelo DCI, o banco Bradesco não respondeu até o encerramento desta edição e a Caixa Econômica Federal optou por não se pronunciar.