São Paulo - O barril de petróleo está próximo de atingir um preço de equilíbrio, o que para o pré-sal é um sinal positivo considerando seu custo elevado de extração. Mas eventos pontuais - que vão desde conflitos geopolíticos até furacões - continuam sendo uma ameaça à estabilidade do mercado global.

"É impossível o Brasil ficar alheio às tensões globais, porém, o mais importante para o País é acelerar a produção na camada pré-sal e garantir redução de custos devido à alta produtividade destes campos", afirma a sócia da Itag Consultoria Empresarial, Ilma Garcia.

Ela acrescenta que, no médio prazo, o pré-sal deve trazer um fôlego extra ao Brasil. "Os riscos na produção de combustíveis fósseis ocorrem há muito tempo e devem se manter. Porém, os investimentos em águas ultraprofundas podem reduzir a exposição do País às intempéries do mercado."

Em relatório divulgado ontem pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), a oferta fora do grupo recuou 32 mil barris por dia (bpd) em agosto, para 57,8 milhões de bpd. Conforme o documento, o resultado foi impactado pelo furacão Harvey, que causou interrupções da produção nos EUA e no Golfo do México.

Reprise

Esta não é a primeira vez que um desastre natural impacta a indústria do petróleo. Em 2005, a fúria dos furacões Katrina e Rita também causou paralisações da produção no Golfo do México.

À época, as áreas devastadas eram responsáveis por aproximadamente 30% da produção de petróleo e 20% do gás natural nos EUA. Um terço do refino do país também era extraído na região.

Os dois furacões destruíram 115 plataformas offshore e, no auge da tragédia, ocasionaram perda de 29% da produção de óleo cru, cerca de 1,5 milhão de bpd. As cotações do barril apresentaram alta expressiva na ocasião.

No entanto, segundo o sócio da área de óleo e gás da KPMG, Anderson Dutra, a indústria do petróleo aprendeu muito com o episódio. "Ao contrário do que ocorreu em 2005, os preços do petróleo tiveram outro comportamento com o furacão Harvey, porque principalmente os seguros das petroleiras já estavam preparados para esse tipo de desastre", esclarece.

Dutra acredita que em algumas semanas os preços dos combustíveis já devam estar estabilizados. "Tudo vai depender do tamanho do fundo para cobrir este desastre."

O sócio da KPMG destaca que, atualmente, eventos pontuais continuam tendo impacto sobre a indústria de combustíveis fósseis. "A instabilidade geopolítica no Oriente Médio, por exemplo, ainda causa influência significativa neste mercado", avalia.

Para a sócia da Itag, Juliana Mendes, o cenário envolvendo questões políticas em países produtores se mostra bastante desfavorável no médio e longo prazo. "A profunda crise na Venezuela, a tensão que vem crescendo no Oriente Médio e a própria crise econômica no Brasil podem atrapalhar novos investimentos, comprometendo a oferta de petróleo no futuro."

Neste sentido, Ilma analisa que as próximas rodadas de licitações e principalmente os leilões na área do pré-sal serão decisivos para compensar os altos riscos de atuação no mercado de combustíveis fósseis.

"O Brasil possui grande atratividade em águas ultraprofundas e alianças serão importantes. Diversos países podem se interessar pelos leilões, incluindo a China", arrisca.

Preço de equilíbrio

O mercado já enxerga um preço de equilíbrio do barril entre US$ 60 e US$ 70 no médio prazo. Ilma observa que dificilmente a cotação deva superar US$ 100 como alguns anos atrás. Contudo, ela pontua que a depressão na Venezuela e o aumento da tensão no Oriente Médio podem levar a uma alta dos preços. "O patamar de US$ 70 é factível nos próximos anos."

Neste nível de preços, Dutra afirma que a Petrobras tende a conseguir melhores margens, já que seu custo é mais elevado que a extração convencional. Porém, ele alerta para o risco em relação às importações. "Caso haja um aquecimento da economia brasileira, o consumo doméstico de combustíveis aumenta e isso pode ser um ponto de preocupação."

Isso porque, de acordo com a sócia da Itag, a Petrobras ainda é altamente dependente das importações de combustíveis. "Se a economia brasileira voltar a ficar bastante aquecida e não houver um aumento ainda mais expressivo das exportações, a balança da companhia pode ficar comprometida", pondera.

Ela acrescenta, porém, que o óleo extraído no pré-sal tem se revelado um pouco mais leve do que o da Bacia de Campos (RJ), o que demandaria, no longo prazo, menos importação de petróleo mais "nobre", amplamente produzido no Oriente Médio.

"A Petrobras precisa concluir as obras necessárias das refinarias para entrar no caminho da autossuficiência de combustíveis", explica Ilma. "Mas como as refinarias não devem ser concluídas antes de 2020, ainda temos um tempo considerável de exposição às oscilações de preços do barril", assinala.