São Paulo - O Setor de bens de consumo está mais propenso a investir em projetos de inovação com retorno rápido. Segundo executivos, recursos escassos e incerteza quanto ao futuro político e econômico do País levam à apostas de mais curto prazo.

"A indústria local tem despertado para a importância da inovação nos últimos anos, mas ainda é muito incremental. Historicamente, estamos atrás de outros países na fronteira do conhecimento", afirma o diretor executivo da consultoria Falconi, Flávio Boan.

Apesar de ganhar importância na estratégia da indústria brasileira, o investimento em inovação ainda sofre com a falta de confiança dos empresários, que deve piorar depois do revés no cenário político-econômico com novas denúncias no âmbito da operação Lava Jato.

"Como a capacidade de previsão do comportamento da economia brasileira é menor, as companhias têm mais receio em investir em projetos com horizonte maior do que três ou quatro anos e isso compromete os investimentos em inovação de longo prazo", observa Boan.

Ele lembra que, com a economia e o faturamento das empresas em retração, os aportes ficam limitados e os projetos de longo prazo tendem a ficar em segundo plano. "As empresas priorizam o que vai garantir a sobrevivência no curto prazo."

A Solenis, fabricante de especialidades químicas, inaugurou um centro de tecnologia em Paulínia (SP) neste mês. "Mesmo com a economia em queda, conseguimos manter uma taxa grande de crescimento em anos recentes e reinvestimos no negócio", conta o vice-presidente da Solenis na América Latina, José Armando Aguirre.

O projeto recebeu R$ 170 milhões em investimentos nos últimos três anos. "O centro será um braço de pesquisa, com as 14 pessoas que atuam no País em conjunto com um grupo de 250 pesquisadores da Solenis pelo mundo", explica ele.

Com o centro, Aguirre espera acelerar a capacidade de análise de resultados e realizar mais testes de aplicação dos produtos. "Como o Brasil é o centro mundial de celulose de fibra curta, aqui será o polo de desenvolvimento de produtos e soluções para esse setor", diz. Mas a função do centro será desenvolver inovações de perfil incremental e não radical, ressalta ele.

Saúde

A farmacêutica Abbott já começou a vender os produtos desenvolvidos em seu centro de pesquisas no Brasil, conta o gerente geral do laboratório no Brasil, Juan Carlos Gaona. "Conseguimos um resultado com as pesquisas muito antes do previsto, com o início das vendas do primeiro produto no ano passado", comenta.

O centro de desenvolvimento, que começou a ser construído em 2015, entrou em operação em julho de 2016. "Ele começou a ser construído em um momento difícil, de crise no País, mas fizemos o projeto pensando no futuro do Brasil".

Apesar do foco no longo prazo, o centro da Abbott tem como principal objetivo desenvolver inovações incrementais na área farmacêutica e não partir de pesquisas básicas, para inovação radical, afirma Gaona.

Já o laboratório brasileiro Aché adota uma estratégia de mix entre pesquisas de retorno no curto, médio e longo prazo, comenta o diretor do núcleo de inovação da empresa, Stephani Saverio."A expectativa em relação aos projetos, principalmente os de longo prazo é sempre um desafio. Mas o que fazemos é ter uma visão clara do que trará retorno mais rápido ou demorado e equilibramos isso entre as equipes de pesquisa".

Com até 30 lançamentos de produtos por ano, o executivo do Aché revela que a companhia tem hoje pouco mais de 160 projetos de pesquisa em andamento. "Desse total, cerca de 30 têm perfil mais inovador, sendo metade disso pesquisa radical", destaca Saverio.

Gargalos

Para Boan, da Falconi, a janela para novos investimentos na indústria brasileira vai abrir quando a recuperação da capacidade de consumo dos brasileiros melhorar. Mas, a retomada da demanda pode esbarrar na falta de mão de obra especializada para as pesquisas.

Com os recentes cortes de investimento do governo federal em bolsas de pesquisa científica e intercâmbios, a atratividade das carreiras de pesquisa pode cair. "Esses cortes em investimento, sem dúvida, comprometem a velocidade da produção de conhecimento e a capacidade de acompanhar as novas demandas da sociedade", ponderou Boan.

Os executivos ouvidos pelo DCI fazem avaliação similar sobre os cortes de investimento em pesquisas, que podem levar a falta de mão de obra capacitada no longo prazo. "Mas hoje a mão de obra não é um ponto crítico. No entanto, a indústria também pode fazer a sua parte e criar programas para desenvolver esses profissionais", defende Saverio, do Ache.

Já as pesquisas radicais - que trazem grandes inovações - e são um gargalo para as fabricantes de bens de consumo no Brasil, devem continuar concentradas no setor extrativo e dependentes do setor público, observa Boan, da Falconi.

"Ainda teremos por algumas décadas uma grande dependência da indústria extrativa como o setor que mais investe em inovação no longo prazo", avalia o consultor.

Ele lembra que o Brasil sempre se destacou pelo pioneirismo na inovação em atividades de extração, como a cadeia de óleo e gás. Mesmo com os problemas recentes, Boan ressalta que a indústria de petróleo brasileira inovou na exploração de áreas profundas. "Isso se repete nos setores de celulose e mineração, que têm perfil extrativo e hoje apresentam bons frutos desse investimento pesado."

Essa vocação para os aportes em pesquisa e desenvolvimento, entretanto, não chegam às indústrias de transformação, área na qual os ganhos com produção de itens de maior valor agregado é maior, afirma.