SÃO PAULO - As multinacionais globais e os grandes fundos de private equity internacional devem priorizar os setores de consumo e de serviços de saúde no Brasil nos próximos anos para aproveitarem os benefícios da nossa estrutura populacional nas décadas de 20 e de 30.



Mas na contramão, esses mesmos investidores internacionais estão em compasso de espera e tentem a evitar aportes em setores regulados como mineração e recursos naturais, energia, infraestrutura, petróleo e gás, e a cadeia do etanol.



"Existe um viés intervencionista do governo brasileiro na economia. Dificilmente se conseguirá investimentos estrangeiros em larga escala para setores regulados no Brasil, isso é um fato", diz a sócia executiva da A10 Investimentos e Assessoria, Ana Cabral Gardner.



No campo positivo, a executiva contou que os players globais de consumo e de saúde estão vendo Brasil com muita atenção. "Os grandes players desses setores estão olhando para o longo prazo, não necessariamente para o próximo governo. Eles olham tendências seculares, de várias gerações e que vão transformar a nossa economia e sociedade", argumenta.



Segundo ela, as transações de fusões e aquisições estão ocorrendo em setores de baixa influência regulatória como de consumo básico. "Mesmo com a crise mundial de 2008, se irá perceber que as ações da Colgate Palmolive nunca caíram, porque ninguém vai deixar de usar os produtos da empresa. São os itens da sua vida, dos quais a pessoa nunca vai prescindir independente de recessão pesada, das pessoas perderem seus empregos na crise extrema".



Ela explicou que em qualquer economia, o setor de consumo perene é muito dinâmico. "Essas companhias geram muito caixa. Isso inclui segmentos de higiene e de cuidados pessoais, vários subsetores da indústria de alimentos. E é o varejo que distribui essas mercadorias. Esses setores estão muito ativos", diz Ana.



Nessa atração de investimentos ela também inclui os setores de serviços de saúde e farmacêuticos. "A grande tendência é o duplo bônus demográfico a partir de 2020, quando a pirâmide populacional se torna um diamante. Os Estados Unidos viveram isso nas décadas de 50 e 60 do século passado", argumentou.



Ana Gardner explicou que se tem o envelhecimento populacional que preocupa a previdência do país. "Mas também é o momento em que o país deixa de ter uma base larga para ter uma população ativa muito maior que a população economicamente inativa, tanto no topo do diamante, como na ponta de baixo. E esse será o momento histórico que mais se criará renda na economia, de maior produtividade".



Ela lembrou que de 2003 para 2013, mais de 59 milhões de pessoas ingressaram na classe média. "O brasileiro é melhor consumidor ocidentalizado que se pode ter, está pronto para consumir e é um gastador", diz.



Risco do aumento do dólar



Mesmo com a confiança no consumo da população brasileira, o sócio executivo da A 10 Investimentos, Marcelo Paiva, considera os riscos do aumento do dólar frente ao real em 2015.



"O fundo de private equity que entrou no Brasil a R$ 1,55 em 2011, e passou nesse período para algo entre R$ 2,45 e R$ 2,50. Mesmo que ele esteja obtendo um retorno de 20% ao ano, não compensou a desvalorização do real", calculou.



Na visão de Paiva, esses fundos de private equity podem estar apresentando retorno negativo no Brasil em dólar. "E o gestor do fundo vai ganhar zero de taxa de performance mesmo tendo feito um investimento que deu retorno em reais", diz.



Paiva lembrou que esses fundos normalmente tem horizonte de longo prazo, entre 8 a 10 anos, para não serem obrigados a sair num momento ruim. "No entanto, entre 2006 e 2008, esses grandes fundos globais como Blackstone e Carlyle listaram suas ações em Bolsa. O é que uma situação bem interessante, se investe em empresas fechadas, mas tem que fazer a prestação de contas para seus acionistas internos no curto prazo. Esses fundos tiveram suas ações penalizadas por causa de aportes em países como o Brasil".



Ele contou que o Brasil sempre foi o mercado mais líquido entre os emergentes. "É o caixa eletrônico, e por isso vê essa volatilidade na moeda. É fácil entrar e sair. O governo até tentou suavizar essa entrada e saída com IOF [Imposto sobre Operações Financeiras]", lembrou.



Ana Gardner explicou que cada vez mais, as operações de fusões e aquisições possuem dois tipos de compradores. O comprador operacional, as grandes multinacionais, e o comprador financeiro, o fundo de private equity. "O câmbio alto é bom para a multinacional, pois os ativos ficam mais baratos. Por outro lado, o investidor de private equity está machucado com o câmbio no atual patamar.Mas ninguém sabe se o câmbio vai parar", diz Ana Gardner.



Segundo ela, essa volatilidade no câmbio diminuiu o ímpeto dos fundos de private equity. "Eles ficam com medo de numa virada de desvalorização, eles entrarem perdendo", afirma.



Sobre o efeito da alta dos juros pelo Fed, o banco central americano, em 2015, Ana Gardner diz que trabalha com três cenários, o benigno, o intermediário e adverso. "Num cenário adverso, o primeiro impacto será no CDS, o risco Brasil, ou seja, a taxa de risco do mercado brasileiro em relação a taxa de risco zero nos Estados Unidos", diz.



Ela explicou que os fundos globais de private equity também utilizam recursos captados em dólar. "A taxa de retorno na qual eles recebem a performance é dolarizada. Normalmente, essa taxa de retorno, o custo de oportunidade preferencial é a variação do dólar mais 8% ao ano. Se a taxa de risco Brasil subir, eles vão exigir mais retorno", apontou a executiva da A10.