São Paulo - Contratar um profissional de alto escalão não é fácil. Essa busca pode ficar ainda mais delicada quando um dos possíveis candidatos trabalhou em empresas investigadas pela Operação Lava-Jato ou foi citado em alguma delação premiada.

Por isso, os profissionais especializados em seleção e recrutamento de executivos destacam que como a última palavra deve ser da empresa contratante, é importante identificar se o candidato adotou uma postura de transparência no processo seletivo, esclarecendo sua trajetória no mercado, sem omitir situações citadas em investigações.

"Existem duas situações: quando a empresa está sendo investigada e quando o profissional, especificamente, está sob investigação", frisa Gustavo Costa, sócio fundador do Unique Group, consultoria especializada em recrutamento para alta gestão.

Costa também orienta atenção para aspectos como experiência no mercado e referências profissionais. Isso pode ajudar a filtrá-los, independentemente se a empresa em que passaram está na lista da Polícia Federal.

O diretor de liderança e gestão de pessoas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Emerson Dias, exemplifica as possibilidades que esses profissionais encontrarão no mercado. "Cada empresa vai ter uma linha de reação diferente: há aquelas que vão vetar a contratação, as que avaliam o caso e aquelas que já sondaram o profissional e o conhecem."

Dias diz que é necessário discernir entre a empresa estar sendo investigada e o indivíduo em questão ter sido citado em delações premiadas como corrupto. "Não podemos condenar uma instituição por meia dúzia de executivos envolvidos em corrupção", avalia o diretor da Anefac.

Desta maneira, profissionais não citados que atuaram em empresas investigadas merecem valor. Com uma visão similar sobre essa questão, o diretor-geral da Robert Half, Fernando Montovani, afirma que o papel das companhias de recrutamento é apresentar as melhores opções com base na experiência e conquistas profissionais. "Não cabe à empresa de recrutamento decidir se o candidato pode ou não participar do processo."

Dessa forma, adotar uma postura radical diante de profissionais com históricos em companhias investigadas pela Polícia Federal pode ser um equívoco. Em casos como este, porém, o que deve pesar no veredicto final é a competência técnica, segundo avaliação de especialistas. Essa é uma das orientações de Carlos Carmona, conselheiro da Orientha, empresa especializada em seleção e recrutamento de média e alta gestão.

"Num processo seletivo temos que ter transparência e não pode haver pontos obscuros da parte do profissional", destaca Carmona.

Segundo ele, é importante que a empresa que procura um profissional "apure o envolvimento, ou não, do executivo em esquemas de corrupção. Já para o candidato, uma das premissas é abrir o jogo."

Mídia

De acordo com Costa, em virtude da exposição midiática negativa da imagem dessas empresas, seus funcionários tendem a abrir mão do emprego e transferir-se para outra companhia, mesmo que em outras condições e salários menores.

Carmona, por sua vez, aponta que o setor de infraestrutura tende a se recuperar por meio da ascensão de pequenas e médias construtoras, em detrimento das gigantes do segmento, como a Odebrecht, uma das envolvidas na Operação Lava-Jato.

Nesse sentido, a S2 Consultoria oferece um teste para verificar a capacidade dos funcionários de lidar com dilemas éticos cotidianos. O exame é batizado como Potencial de Integridade Resiliente (PIR).

O sócio da consultoria Renato Santos afirma que esse modelo de avaliação foi criado nos Estados Unidos e ganhou força no Brasil apenas em 2013. "Desde a década de 1980 as empresas americanas já tinham uma preocupação sobre o alinhamento ético do candidato", afirma.

Questionar e orientar o candidato sobre a lei nº 12.846 (Anticorrupção) ganha cada vez mais importância no processo de contratação. Segundo Costa, esse mecanismo legal tem como objetivo coibir práticas ilícitas dentro das empresas. A regulamentação estimula a criação de canais de denúncia, que atuam como medidas preventivas sobre condutas irregulares dentro das organizações.