A próxima colheita brasileira de uvas deverá supera os 500 milhões de quilos, contra 493,25 milhões em 2005, segundo dados da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra). O Rio Grande do Sul representa 95% da produção brasileira. Além do aumento da produção, a previsão é de que haja continuidade do processo de melhora da qualidade da uva brasileira. "Houve um avanço nas mudas, melhoramento no plantio, que está mais moderno, e nas técnicas de vitivinicultura", resume o presidente da Uvibra, Antonio Salton.

Caso as estimativas para esta safra sejam confirmadas, o ano de 2006 será o terceiro consecutivo de uvas de alta qualidade. Por este motivo, algumas vinícolas gaúchas estão deixando de apostar no segmento de vinhos de mesa para buscar uma produção de melhor qualidade. "O nosso planejamento é ampliar a participação dos vinhos de alta qualidade. O percentual, hoje em 10%, deve mais que dobrar", afirma o diretor da vinícola Salton, Daniel Salton. Os espumantes finos já são responsáveis por 22% do faturamento da empresa.

Concorrência

A melhora de qualidade e os investimentos em tecnologia também são questão de sobrevivência para as vinícolas brasileiras. A concorrência dos vinhos importados, principalmente do Chile e da Argentina, tem prejudicado os negócios. "Estamos buscando reduzir custos e despesas, ao mesmo tempo que aprimoramos a qualidade. Não podemos apenas depender de redução de impostos", diz Daniel Salton.

Segundo o pesquisador da Embrapa Vinhos e coordenador da estratégia de vitivinicultura do Rio Grande do Sul, José Protas, o setor tem perdido espaço para os importados. No período de 2001-2005, a participação dos vinhos importados no mercado brasileiro de vinhos finos passou de 53% para 59%. Em 1994 esta participação era de 31,6%. "Neste cenário, é notável o espaço conquistado pela Argentina e pelo Chile em detrimento dos demais países exportadores, em especial dos europeus, já que neste mesmo período o crescimento do nosso mercado interno de vinhos finos foi de apenas 4,5%", ressalta. O quadro se torna mais preocupante quando confrontado com as estatísticas referentes à comercialização do vinho fino nacional. "Verificamos uma queda no volume absoluto comercializado de 15,5%, sendo que, quando analisados estes dados no período de 1999-2005, esta queda atinge 47%, portanto, a perda de competitividade dos vinhos finos brasileiros no mercado interno, embora com uma inversão de tendência em 2005, tem se mostrado inexorável", ressalta.

A indústria gaúcha tem investido em técnicas diferenciadas de produção. A tradicional forma de plantio de vinhedos, chamada latada, está sendo substituída. Neste modelo a parreira se desenvolve horizontalmente, formando um telhado sob o solo. Agora as empresas passaram a investir em uma nova técnica de cultivo, conhecida como espaldeira. Diferente do método tradicional, o vinhedo plantado no modelo espaldeira cresce em uma tela na vertical, o que garante uma insolação até 50% maior.

A Château Lacave, terceira maior em faturamento do Brasil, é uma das que acreditou na técnica. Segundo Silvânio Antônio Dias, enólogo da companhia, quanto mais sol o vinhedo receber, maior será o teor de sacarose das uvas. "Começamos a substituição do latada para o espaldeira em 2001 e acabamos no final de 2005", diz ele. No projeto, a Lacave investiu mais de R$ 1 milhão. Na safra de 2005, a empresa colheu mais de 840 toneladas de uva e a perspectiva para 2006 é crescer cerca de 10%.

Outra vinícola que também está convertendo seus vinhedos é a Georges Aubert, quarta maior vendedora de espumantes do País. Até o ano passado, a empresa usava o latada. Agora, 30% dos vinhedos da vinícola estão no modelo 'Y', muito semelhante ao espaldeira. "Além de permitir uma maior insolação, o 'Y' garante uma melhor passagem do ar entre os vinhedos, o que resulta em cachos 100% maduros", diz a diretora executiva da Georges Aubert, Dayse Tanuri. No ano passado, a companhia produziu 550 mil litros de espumante e consumiu quase 2 milhões de quilos de uva. Para 2006, a perspectiva é de chegar a uma produção de 650 mil litros. Já a Cia. Piagentini iniciou a conversão dos vinhedos há dois anos. Cerca de 45% dos 45 hectares da empresa já estão no modelo espaldeira, sendo o restante ainda cultivado no método tradicional.