São Paulo - São Paulo iniciou a campanha "Cidade Sem Máscaras - Unmask my City", iniciativa inédita que vai acontecer nas dez cidades com maiores índices de poluição do mundo. Para especialistas, o evento pode pressionar o Estado de São Paulo a avançar nos padrões de medição de qualidade do ar recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Segundo o Presidente do Conselho do Projeto Hospitais Saudáveis, Vital Ribeiro, os dados divulgados pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) mascaram a problemática da poluição na metrópole. "Pelo padrão da OMS, São Paulo estaria com nível crítico de ar todos os dias", diz.

A tolerância da Cetesb para o índice de poeira (Material Particulado Fino - MP 2,5), poluente advindo das emissões veiculares que atinge as regiões mais profundas do trato respiratório, é de 60 microgramas por metro cúbico, enquanto a recomendação da OMS é de 25 microgramas por metro cúbicos na média de 24 horas. Todos os outros poluentes, como o Material Particulado Grosso (MP 10) e o Ozônio (O3) ficam acima da média recomendada pela Organização.

Ribeiro diz que a intenção da campanha é chamar a atenção dos governos para o tema que, segundo ele, "anda esquecido da agenda política". Em São Paulo, a campanha propõe a ampliação do transporte público e uso de combustível limpo na frota para o alcance das metas estabelecidas pela OMS. Ribeiro diz que a poluição mudou de perfil e, por isso, a "própria sociedade não pressiona os poderes para a realização e/ou melhoria de políticas públicas". O coordenador de Qualidade do Ar do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), Ademilson Zamboni, explica que essa mudança de perfil ilustrando o cenário de 1970, em que a poluição era mais "grosseira" e visível, por ser advinda essencialmente da indústria. "Hoje a poluição é gerada principalmente pelos veículos, que emitem poluentes que se dissipam com mais facilidade no ar, como o MP 2,5, por exemplo. O céu das cidades está visualmente mais 'limpo', mas a poluição continua", avalia Zamboni.

Saúde

Segundo Ribeiro, o diferencial da campanha é a junção de especialistas em clima e saúde para discutir soluções para a poluição. "Há uma vasta literatura que comprova mortes prematuras, doenças cardiovasculares e respiratórias causadas pela poluição, onerando o sistema de saúde", diz. Segundo o médico e pesquisador da USP, Paulo Saldiva, a poluição causa cerca de 4 mil óbitos por ano em São Paulo, número maior que o de mortes causadas por Aids e tuberculose somadas. Participam da ação cidades da Índia, Polônia, Sérvia, África do Sul, Turquia, Reino Unido e EUA.