Direto da China Adriane Castilho Editora de Abertura
17/07/2017 - 09h32

Cooperação: um desafio para China e América Latina

Beijing reúne jovens dos âmbitos acadêmico e político para discutir como estreitar relações no momento em que os EUA parecem mudar sua estratégia no jogo global

Pesquisadores reunidos em Beijing na segunda edição do Diálogo de Jovens Acadêmicos
Pesquisadores reunidos em Beijing na segunda edição do Diálogo de Jovens Acadêmicos
Foto: Adriane Castilho/DCI

BEIJING - Como aprofundar a cooperação econômica, política e cultural entre América Latina e China no momento em que o jogo de forças no mundo passa por mudanças estruturais? Durante dois dias, cerca de 100 jovens acadêmicos e políticos reuniram-se em Beijing para discutir respostas a esta questão. De ambas as partes, algumas constatações: a necessidade de maior conhecimento mútuo, de aprimorar os mecanismos institucionais já existentes e de apostar na diplomacia entre as pessoas.

O evento, organizado pela All-China Youth Federation, englobou nos dias 13 e 14 de julho a segunda edição do Diálogo de Jovens Acadêmicos e a quarta edição do Fórum de Jovens Lideranças Políticas. É mais um dos vários esforços de aproximação do país com a região, acentuados no governo de Xi Jinping.

Em 2015, o primeiro fórum China-Celac reuniu chefes de Estado em Beijing e firmou propostas como a de trazer mil jovens lideranças latino-americanas para visitas ao longo dos dez anos seguintes. Em 2016, o país lançou seu segundo pacote de políticas para a América Latina. O próprio Xi já fez três visitas à região, lembrou na abertura do evento da semana passada Zhou Zhiwei, diretor executivo do Centro de Estudos Brasileiros do Instituto de Estudos Latino-Americanos, da Academia Chinesa de Ciências Sociais.

Zhou disse que, quando o instituto iniciou suas pesquisas, há mais de dez anos, prevalecia na região uma imagem da China como uma possível ameaça. Para ele, essa percepção mudou com a reorientação da diplomacia chinesa e o desejo da América Latina de buscar desenvolvimento econômico.

A cooperação aumentou e já há mais de 100 mecanismos bilaterais e multilaterais em funcionamento, mas ainda falta uma colaboração mais efetiva, avaliou. "Temos importantes iniciativas para desenvolver relações com a América Latina, mas a região não tem o mesmo nível de resposta", disse. "Poucos países têm políticas específicas para a China", acrescentou.

Para o peruano Cesar Davila, vice-presidente da Organização de Estudantes Latino-Americanos na Universidade de Tsinghua, a dificuldade de agir como um bloco é um ponto fraco para a América Latina. "Trabalhar em conjunto e negociar de forma unificada seria muito mais benéfico", disse. Para o colombiano Javier Luque, doutorando em Relações Internacionais na East China Normal University, em Shanghai, a China ainda é vista por alguns como uma ameaça na América Latina e os países disputam entre si para atrair investimentos, o que dificulta uma eventual iniciativa em bloco.

"A China é um só país e na América Latina somos muitos, com realidades complexas e diferentes", resumiu o argentino Diego Mazzoccone, diretor-executivo do Centro Latino-Americano de Estudos Políticos e Econômicos da China (Clepec). "O contexto político é muito dinâmico na região, muda muito. Isso joga contra uma estratégia de médio e longo prazo na relação com a China. É o grande desafio que temos", acrescentou.  

Nova ordem

O contexto dos eventos promovidos pela China é o de uma economia global que desacelera enquanto o protecionismo e o populismo avançam, o que exigiria maior cooperação internacional em defesa da estabilidade e do desenvolvimento. Esse é o cenário apresentado nos discursos de autoridades chinesas em uma série de iniciativas recentes de aproximação com outros países.

Só neste ano, Beijing já reuniu quase 30 chefes de Estado e de governo em torno da iniciativa 'Um Cinturão, Uma Rota', em maio, e agora conduz uma intensa agenda de reuniões preparatórias para a cúpula dos Brics, que será realizada no início de setembro em Xiamen, na província de Fujian, costa sudeste da China.

Entre os acadêmicos que participaram das discussões na semana passada, a visão é de que o cenário global está em transformação. "Há uma mudanç a estrutural nos últimos dez anos, pós-crise de 2008, com uma recentragem da economia mundial na Ásia. O principal motor disso é a China", disse Bruno Hendler, doutorando em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para ele, a China tende a construir periferias econômicas em torno de si, e dessa projeção emergem contradições para os países em desenvolvimento. Uma delas é ambiental, já que a demanda chinesa por recursos naturais pode levar a uma exploração imprópria. Outras contradições são econômicas, com a pressão na balança de pagamentos desde que a China passou a direcionar exportações para os emergentes após a crise de demanda nos países ricos em 2008.

"A imagem da grande compradora de soja e ferro do Brasil passa a ser ofuscada por uma nova China, muito mais complexa, que também inunda os mercados com computadores e outros produtos de valor agregado", disse. "Agora o pacote China é muito maior, porque envolve também investimento externo direto de empresas chinesas públicas e privadas, megaprojetos de infraestrutura, internacionalização da moeda chinesa e serviços financeiros."

Negociação

O discurso da diplomacia chinesa é de que suas iniciativas são baseadas nos princípios de cooperação 'win-win', com ganhos para todos os envolvidos. Na visão dos brasileiros que participaram dos seminários na semana passada, há possibilidade de benefícios, mas a negociação exige cuidados.

"Há que se ter muita cautela, mas acredito que existe espaço [para ganhos mútuos]", disse Hendler. "Como se trata de uma relação que inevitavelmente é assimétrica, há jogadores com interesses distintos, mas existe um meio campo em que ambos possam sair ganhando."

Para Kelly Ferreira, professora de Relações Internacionais da PUC de Campinas e doutoranda, a política externa brasileira não tem uma estratégia para lidar com o parceiro asiático. "Nosso corpo diplomático sabe muito pouco sobre China. Essa falta de preparo faz com que a gente saia perdendo, porque não é o Brasil que vende para a China, é a China que vai comprar do Brasil", disse.

A pesquisadora diz que houve ensaios como em 2010, quando o Ministério do Desenvolvimento Econômico criou um plano para, em cinco anos, triplicar as exportações de 140 produtos estratégicos para a China, entre eles celulose, café e carnes. "São produtos que os chineses compram de outros países, muitas vezes mais caro ou de pior qualidade", afirmou. Por falhas na execução, porém, o plano não deu resultado. "Os chineses provavelmente comprariam se fosse ofertado, mas o Brasil não sabe vender", disse.

Para André Mendes Pini, doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador da Capes, o Brasil está em um período muito conturbado da política interna, o que acaba se refletindo em uma política externa mais reativa e introspectiva. Isso acontece no momento em que os EUA se retiram de uma série de tabuleiros globais, tema do trabalho que o pesquisador submeteu aos organizadores do evento e pelo qual foi selecionado a participar.

Pini escreveu sobre as possibilidades da relação bilateral Brasil- China a partir do efeito Donald Trump no sistema internacional - quais as oportunidades para o país asiático ocupar esse vácuo e como o Brasil poderia se beneficiar disso. "A gente teria um momento muito oportuno, no qual a trajetória da diplomacia brasileira e os passos da última década poderiam impulsionar o Brasil a ocupar um lugar importante no cenário internacional", disse. "Para o Brasil, infelizmente, é uma oportunidade perdida devido à conjuntura política interna."

(A jornalista viajou a convite da Associação de Diplomacia Pública da China) 

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