SÃO PAULO -  O crescimento da China deve desacelerar. Por ser o principal parceiro comercial do Brasil, especialistas consultados pelo DCI acreditam que essa diminuição deva impactar as vendas brasileiras de produtos mais supérfluos, como minério de ferro, para o país asiático.



Segundo o presidente da Câmara Brasil-China (CCIBC), Kevin Tang , entre os principais produtos que o Brasil exporta para o país estão soja, petróleo, minério, papel e celulose e açúcar. Dentre esses itens alguns são básicos para a alimentação. Ele explica que mesmo com a desaceleração econômica, "a China não vai parar de comer, ela vai continuar importando comida do Brasil, agora, minério de ferro, petróleo, papel e celulose, que são produtos utilizados para a construção e para a indústria, podem ser mais afetados". Nos primeiros quatro meses de 2012 o minério de ferro representou 32,7% de tudo o que foi exportado pelo Brasil para o país asiático.



O presidente afirma que tomando como base a corrente de comércio entre os dois países do ano passado, de US$ 77 bilhões, caso a China diminua 10% das trocas com o Brasil - o que na opinião dele dificilmente vá acontecer - isso vai representar cerca 0,3% do Produto Interno Bruto Brasileiro (PIB). "Não é o fim do mundo, o que eu acho que vai acontecer é que a China vai continuar crescendo nesse patamar, média de 7,5% ao ano, sendo que sempre cresceu acima", completou. Ele acrescenta que essa queda no crescimento não se deve somente à crise internacional mas essa "desaceleração já era almejada pelo governo chinês há algum tempo, desejavam isso pela pressão inflacionária", disse.



Para o professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing do Sul (ESPM-Sul), Diego Pautasso "não há duvida que o recuo da economia chinesa somado com a desaceleração da economia europeia e americana cria um problema". Segundo ele, a China representa cerca de 13% do comércio exterior brasileiro mas "é importante lembrar que o Brasil tem um comércio bastante diversificado, com muitos países, que se deve sobretudo aos esforços recentes de aumentar a presença na África e no Oriente Médio, isso serve como amortecedor da crise", completou.



Tang afirma que "o comércio [entre os dois países] vinha crescendo a uma taxa de mais ou menos de 25% ao ano, ele continua crescendo, porém, a um ritmo muito menor. A média deste ano ainda cresce a uma taxa de mais ou menos de 5% a 7%".



Apesar da desaceleração chinesa não representar um cenário tão preocupante para o comércio exterior brasileiro, os dois especialistas concordam que a nova política econômica chinesa pode influenciar o Brasil indiretamente. "A China também tem um papel importante na formação dos preços das commodities, e o Brasil tem 'surfado' uma bonança das commodities", diz Tang. Por isso, ele acredita que o País deve se preocupar com a possível queda dos preços desses produtos que esse novo tipo de crescimento pode gerar. Apesar disso, ele diz que provavelmente os preços não vão "desabar de uma hora para a outra".



Para o professor da ESPM a tentativa de diversificação da pauta para a China perpassa uma questão que não atinge apenas o Brasil. "O esforço de diversificar a pauta de exportação para a China tem sido uma constante, entretanto, o Brasil não tem conseguido resultados. Isso se deve em parte pela China ter se constituído como a fábrica do mundo, o problema geral que o mundo enfrenta, a competitividade chinesa se deve a fatores como câmbio desvalorizado e escala produtiva gigantesca. Essa escala permite que eles consigam alcançar essa produção, o Brasil face a isso vem tomando medidas defensivas, o País precisa se proteger".



Empresas brasileiras



Uma das questões que chamam a atenção na relação bilateral é a pequena quantidade de empresas brasileiras instaladas na China. Para Pautasso, isso se deve ao fato de que o nível de conhecimento sobre a realidade chinesa é muito baixo. "Há uma distância geográfica e uma distancia cultural. O Brasil desconhece a cultura de negociação chinesa, desconhece a geografia do mercado, esse é um fato relevante. Além da complexidade de se tratar de um país que tem dimensão continental", disse. O presidente da Câmara Brasil-China também acredita que a questão cultural impede negócios mais diretos.



"Tem uma enorme barreira cultural, a própria Câmara tem ajudado empresas a abrir produção lá e se aproveitar do mercado chinês, as empresas brasileiras estão fazendo isso, talvez de uma forma tímida, mas é um processo que não é tão simples e são poucas as empresas brasileiras que têm se aventurado fora do Brasil". Ele acredita que é muito mais fácil ir para os Estados Unidos, países da Europa, ou da África, que são lugares em que temos uma maior identificação cultural.



Para o presidente Tang, outra questão que deve ser analisada quando pensamos em investimos diretos é que o país asiático tem um mercado consumidor pequeno já que o povo chinês é um grande poupador por não possuírem um sistema de seguridade. "A China já tem exaurido a cota dela de investimentos para manter o mercado consumidor, ela quer que o chinês consuma mais. Quando o chinês conseguir instituir a seguridade social, isso pode mudar", disse.



O professor da ESPM não concorda. "O chinês poupa muito mas o dinamismo da economia é muito grande, a quantidade da população é muito grande, o país é o maior mercado de luxo do mundo", afirmou.