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03/02/2014 - 00h00 | Atualizado em 03/02/2014 - 11h46 Comentarios nesta notícia: 1

Pró-consumo é modelo inconsistente

O modelo pró-consumo, colocado em prática pelos últimos governos, especialmente nos mandatos dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, chegou ao limite, levando o...

Liliana Lavoratti

foto: DivulgaçãoSegundo Velloso, governo prioriza consumo e compensa indústrias prejudicadas

Segundo Velloso, governo prioriza consumo e compensa indústrias prejudicadas

O modelo pró-consumo, colocado em prática pelos últimos governos, especialmente nos mandatos dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, chegou ao limite, levando o País a se deparar novamente com uma crise nas contas públicas, que reduz a credibilidade em um ano atípico - de corrida presidencial. A avaliação é do especialista em contas públicas, Raul Velloso, em entrevista ao DCI.

"O governo tem um modelo inconsistente. Ao mesmo tempo que é pró-consumo, é pró-indústria. Pelo lado do consumo prejudica a indústria e, para compensar a indústria, dá incentivo fiscal que gera subsídios, desoneração, proteção, financiamentos do BNDES", afirma Velloso.

Ele também fala das diferenças entre as situações atuais do Brasil e da Argentina.

DCI - Qual a diferença nas dificuldades do Brasil e da Argentina?

Raul Velloso - Na Argentina, todos os sintomas acabaram aparecendo em um modelo que se esgotou e que lá atrás aproveitou a onda externa favorável e a capacidade ociosa para ativar a economia e aumentar as reservas, já que as exportações permitiam isso. Mas com política monetária e fiscal frouxas, e usaram e abusaram do uso de recursos orçamentários para financiar subsídios, praticar populismo. Foi um quadro de deterioração paulatina. No Brasil, quando perdemos o modelo cambial do Gustavo Franco, houve uma subida imensa do câmbio, depois se manteve relativamente estável, e outro momento ruim foi em 2003, com a saída de FHC e início do governo Lula. O que fez a diferença em relação à Argentina é que aqui o câmbio disparou e parou com o acordo com o Fundo Monetário Internacional, que colocou um volume grande de recursos à nossa disposição. Soltamos o câmbio com forte apoio do FMI. Havia incertezas, o estoque da dívida era muito alto, mas quando o governo Lula anunciou a manutenção do tripé da política econômica do governo FHC - câmbio flutuante, metas de inflação e fiscal - e no mundo explodiram os preços das commodities, que também beneficiou a Argentina, o Brasil estava melhor preparado para receber esses benefícios todos. Já a Argentina teve de gerar dólares sozinha, e conseguiu administrar a situação porque os preços das commodities ajudaram. Para o Brasil foi mais fácil pela inundação de dólares. Até há pouco tempo o ingresso de capitais estrangeiros no Brasil era da ordem de US$ 100 bilhões por ano em bases anuais. O dinheiro ainda continua entrando, embora em volume menor. Esse fluxo de capitais externos e os preços das commodities permitiram ao Brasil ficar com a questão cambial tranquila, como nunca tivemos com reservas de US$ 400 bilhões. Mas é um problema que atormenta os argentinos. As reservas passaram de US$ 57 bilhões para US$ 29 bilhões.

DCI - Lidamos melhor com a questão externa?

RV - Sem dúvida. O nosso problema é outro. Hoje, a Argentina vive uma crise cambial, está em vias de uma grande desvalorização com consequências incríveis na inflação e desorganização da economia, se não souberem fazer política macroeconômica dura - alta de juros, ajuste fiscal, o que até agora não deram sinal neste sentido. Tentam administrar só soltando um pouco o câmbio para diminuir a diferença com as várias taxas no paralelo. Quanto à desvalorização cambial: aqui a taxa de câmbio só apreciou de 2003 até 2011, fora momentos de exceção. O Banco Central comprava tudo o que sobrava e acumulava reservas. Até restringiu a entrada de dinheiro. Foi uma guerra interna no governo, com pressão para o BC desvalorizar o real. O BC comprava, mas a entrada de dinheiro era tão grande que isso mal conseguia segurar um pouco a queda. Chegou uma hora que o governo disse chega, tem de desvalorizar. Mais adiante a situação externa piorou, com o BC dos EUA anunciando o fim dos estímulos monetários. O dinheiro saiu daqui, com a desvalorização causada pelo mercado e não mais em função da ordem do governo ao BC, mas pela ação do mercado.

DCI - Isso coincidiu com um quadro mundial menos favorável.

RV - Isso foi do ano passado para cá. Juntou a redução da abundância da liquidez com o crescimento menor no mundo. E os preços das commodities pararam de subir. O BC não precisou muito esforço para depreciar o câmbio, teve até de fazer leilões diários para evitar uma desvalorização muito grande. Menos liquidez externa, estabilização dos preços das commodities, deterioração fiscal no Brasil. Isso espantou o investidor, que diminuiu o apetite por comprar títulos brasileiros por uma razão interna nossa, não só porque lá fora tem menos dinheiro. Os capitais vão para os EUA, para a Alemanha. Além disso, teve a perda de credibilidade fiscal, um problema que todo mundo pensava não existir mais aqui. Ao problema lá de fora se somou um problema interno, ressurgindo a discussão sobre o modelo brasileiro, como na Argentina. O governo Lula puxou a economia pelo consumo. Esse era o nosso modelo, que na realidade existe na maioria dos países, pois no fundo a população pede isso e os políticos atendem. O modelo do consumo vinha operando e os gastos crescendo há anos, principalmente as despesas com os pagamentos às pessoas - salários, gastos correntes em geral, programas de transferência de renda. Uma perna do modelo do consumo já existia há muito tempo, Lula e Dilma só pisaram no acelerador da perna que vinha apoiada na expansão das contas públicas. Chegamos ao ponto de incorporar em lei o grande aumento do salário mínimo. E veio a expansão do crédito. Do mesmo jeito que na Argentina a capacidade ociosa e crédito limitado foram margens utilizadas para manter a economia funcionando, aqui isso também aconteceu. Quando Lula entrou, o crédito total era de 25% do PIB, hoje é 50%, com novas modalidades, como o crédito consignado. Com o dinheiro de fora invadindo o Brasil, os juros caíram, a situação fiscal era tranquila e houve apreciação cambial. Um ciclo virtuoso ajudado por juros em queda, aumento de salários e redução do desemprego. Gasto corrente maior, mais crédito, mais emprego, mais salário, menos juros. Tudo na direção de ampliar o consumo.

DCI - Esse modelo teve também consequências negativas?

RV - O modelo pró-consumo teve várias consequências, uma delas foi a apreciação real da taxa de câmbio pela entrada de dólares e por um fator interno de apreciação real de taxa de câmbio. É natural que os preços do setor que não comercializa com o externo, caso dos serviços, subam em relação aos preços de bens comercializados com o exterior. A onda de crescimento do consumo bateu nos serviços, que reage mais lento, pois não dá para importar para complementar a produção interna, e é onde o governo interfere muito e atrapalha, como na infraestrutura. Esses investimentos ficaram parados, os fretes sobem. Nos setores que comercializam com o exterior, basicamente a indústria, que importa e tem competição com os importados, a reação é mais rápida, dá para trazer de fora e os preços são dados lá fora e não aqui. A operação da economia brasileira passou a ter um viés na direção da apreciação cambial desde 2003. Outros fatores se juntaram a esse viés: o aumento de preços das commodities, que ampliou o valor das exportações, e a inundação de dólares que jogou dinheiro aqui. A economia brasileira nesse modelo e com o boom da economia mundial se direcionou para ter cada vez maior déficit externo em conta corrente, mesmo com exportações crescentes. Saímos de superávit em conta corrente antes de 2003 e hoje temos déficit em conta corrente de 3% a 4% do PIB. O que não é um problema no Brasil porque a entrada de recursos externos ajudou a financiar esse buraco. Essa folga nos recursos externos ainda permitiu ao BC acumular US$ 400 bilhões em reservas. A poupança externa complementou nossa escassa poupança interna. Isso passou a acontecer depois de 2003. O incrível é que antes disso o Brasil vivia em crise, a economia brasileira teve anos de paz e reestruturação produtiva interna. Veio a crise mundial, passamos por ela bem, e o processo deveria continuar.

DCI - Por que não continuou?

RV - Porque os setores prejudicados na indústria brigaram com o governo para conseguir compensação, brigaram pela desvalorização cambial e o governo atendeu e depois o próprio mercado fez essa desvalorização. Além disso, o governo tem um acentuado viés pró-consumo e pró-indústria. Isso está na raiz do PT, na visão da presidente Dilma, de que o país sem uma indústria forte não está bem. Isso é contra a tendência que decorre do modelo do consumo. Ou seja, o governo tem um modelo inconsistente. Ao mesmo tempo que é pró-consumo, é pró-indústria. Pelo lado do consumo prejudica a indústria e, para compensar a indústria, dá incentivo fiscal que gera subsídios, desoneração, proteção, financiamentos do BNDES. É uma cesta de estímulos e benefícios que o governo começou a colocar em prática para compensar a indústria, que redundou em uma reestruturação em grande medida decorrente do modelo pró-consumo, mas também em função do boom mundial. O governo sentiu necessidade de fazer um esforço na direção oposta da tendência do consumo, no sentido de compensar pelo menos parte da indústria prejudicada pelo modelo pró-consumo, a opção do governo. Uma bola de neve. Exagerou com alguns, por exemplo, o setor de commodities não precisava de ajuda, diferentemente da indústria têxtil e a de calçados, destruídas pela concorrência chinesa. O governo lançou mão de mecanismos como financiamento do BNDES, desoneração tributária, novas políticas de proteção comercial, começou a agir no sentido de se contrapor àquela tendência natural de favorecer os serviços e as commodities e contra a indústria menos competitiva. Muitas indústrias estão virando importadoras e montadoras. Quem até três anos atrás produzia e exportava para a China, hoje virou entreposto da China. Houve mudança estrutural contra a qual o governo definiu ações cada vez mais pesadas visando compensar os perdedores.

DCI - E essa compensação é feita com recursos do Orçamento. É a raiz da piora das contas públicas?

RV - Isso tudo passa pelo Orçamento, da mesma forma que os subsídios concedidos pelo governo de Cristina Kirchner. O boom mundial, nossa reorganização macroeconômica, o modelo pró-consumo levou nossa economia a crescer mais, mas foi um crescimento baseado mais em serviços e commodities do que na indústria de transformação. Dois indícios fortes de que a economia brasileira foi travada por algo novo: a taxa de investimento parou de subir e a produtividade não cresce porque está associada ao investimento. A economia brasileira, depois da crise, começou a dar sinais de travamento. Assim como, alguém veio e puxou o freio de mão. Isso aparece na taxa de investimento, que tem efeito sobre produtividade, e aparece sobre a indústria, que conseguiu crescer lá atrás apesar do modelo, mas parou de crescer. Não adiantaram os estímulos com redução de tributos, a indústria ficou estagnada depois da crise e ainda hoje. No fundo, os estímulos serviram só para manter aquele nível de produção. O que está na raiz dessa travada, principalmente, na indústria? A subida dos salários, a falta de avanço da produtividade e o câmbio desfavorável à industria. A combinação disso tudo resulta em salários puxados pelos serviços e commodities, que repassaram aumento de salário para os preços. E hoje estamos com a perspectiva crescimento travada porque o investimento não sobe mais que o PIB, a produtividade não cresce, e lá fora os preços commodities pararam de subir. Tudo isso do lado da oferta. Do lado da demanda, prejudica o crescimento o fato de os instrumentos que estimulavam o modelo pró-consumo terem perdido a força. O crédito bateu na inadimplência, os salários também começam a dar sinais de que não vão subir tanto, o emprego também não avança no mesmo ritmo. E nas contas públicas estamos diante de uma crise fiscal e o governo terá de frear gastos correntes. Fatores desfavoráveis do lado da oferta e da demanda que se traduzem em perspectiva menor de crescimento da economia - em vez de 5%, falamos de 2% a 2,5%. O sonho de retomada do crescimento caiu pela metade neste momento. E com problema fiscal, que não tínhamos.

DCI - E hoje discutimos novamente a necessidade de aumentar o superávit fiscal.

RV - Os superávits caíram e isso não foi um problema porque havia espaço para acomodar essa queda. Com a queda dos juros, caiu a razão dívida-PIB e para manter isso estável não era necessário superávits tão grandes. Mas chegamos ao limite. Mesmo que hoje o problema não seja tão grave, os investidores olham as perspectivas. A partir de agora o superávit fiscal sobe ou a dívida-PIB sobe. A gordura já acabou e o governo está sem credibilidade. O que importa hoje é que o superávit acalme, tem de ser no mínimo 2% do PIB, mas de forma crível, sem cheirar à contabilidade criativa. Esta é a razão de o governo perder noites de sono. Tem de produzir superávit pelo menos desse tamanho e convencer que é crível. Vai ter de mexer nas desonerações, diminuir empréstimos do BNDES, controlar gastos. E isso, em ano de eleição. As agências de risco não vão tirar o investment grade do Brasil na esperança de que no começo do próximo governo ocorram muitas mudanças. Não haverá a desculpa de falta de clima político.

 

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