Especial
11/10/2016 - 05h00 | Atualizado em 11/10/2016 - 13h14

Empresa de impacto social pode dividir o lucro entre os sócios?

Duas linhas de pensamento distintas caracterizam o modo como são estruturados esses negócios e de que forma buscam dar sustentabilidade aos projetos

Sala de aula da 4YOU2: modelo acessível presente em comunidades carentes de São Paulo
Sala de aula da 4YOU2: modelo acessível presente em comunidades carentes de São Paulo
Foto: Divulgação

SÃO PAULO - Há pelo menos duas vertentes distintas nos negócios de impacto social. No sentido amplo, a definição é a mesma: uma empresa autossustentável, criada com o objetivo de resolver um problema a fim de impactar social e economicamente o meio no qual está inserida. O que difere uma proposta da outra é a linha de pensamento no qual foi estruturado. 

A primeira, apresentada pelo economista e Nobel da Paz Muhammad Yunus, é que todo o lucro deve ser reinvestido na produção, a fim de que o negócio possa ganhar cada vez mais escala, explica o professor de empreendedorismo social Marcus Nakagawa, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Yunus ficou conhecido como o 'banqueiro dos pobres' por ter criado um projeto de microcrédito para pessoas sem dinheiro, projeto que lhe rendeu o Nobel. 

Essa visão pode ser um pouco conservadora para alguns, mas é fundamental para que o negócio não perca seu mote social, na concepção de outros. "A linha de pensamento Yunus mexe com mais dimensões do ser humano do que apenas fazer dinheiro", explica Rogério Oliveira, CEO da Yunus Negócios Sociais Brasil, braço local da organização criada pelo economista de Bangladesh.

O que essa visão propõe é algo maior que o 'business' tradicional, cuja prioridade é maximizar o lucro dos acionistas. O investidor recupera seu investimento inicial, mas o lucro é redirecionado para ampliação do negócio. Já os colaboradores são remunerados de acordo com o valor de mercado e têm acesso a melhores condições de trabalho.

Oliveira defende que a inexistência da divisão de dividendos garante que a empresa possa se manter focada no seu objetivo principal - o impacto social. "Quando há divisão de lucros, a empresa pode se tornar frágil. A rentabilidade, quando utilizada para reinvestimento no negócio, torna-se reciclável", argumenta.

De olho no mestre

A startup de inglês 4YOU2, criada em 2012, é um exemplo de negócio social concebido exatamente no modelo difundido por Yunus. Presente em comunidades carentes de São Paulo, como Heliópolis, Capão Redondo e Jardim Ângela, a escola de idiomas cobra mensalidades até sete vezes mais baratas que os valores praticados no mercado.

A cada seis meses,um grupo de estrangeiros vem ao Brasil para ministrar as aulas. A startup oferece hospedagem e uma bolsa auxílio a esses profissionais e, em troca, eles adquirem experiência cultural durante o convívio com os alunos. Moradores da comunidade podem hospedar os professores e ainda ganhar uma ajuda de custo com isso.

Já passaram pela escola mais de 5 mil alunos e 150 professores de diferentes nacionalidades. Todo o lucro gerado vem sendo reinvestido no negócio.

O diretor geral da 4YOU2, Raley White, explica que o objetivo da empresa é um dia estar em praticamente todos os bairros carentes do mundo, por isso aposta nesse método de reinvestir todo o lucro.

Em busca de investidores

O segundo conceito, abordado pelos professores Michael Chu, da Universidade de Cornell, nos EUA, e Stuart Hart, de Harvard, defende que uma empresa com missão social pode dividir o lucro e que essa atitude atrai mais investidores na medida em que o impacto social da empresa ganha escala, explica Nakagawa, da ESPM.

A aceleradora de negócios Artemisia, de São Paulo, aposta nessa linha de pensamento e acelera somente empresas de impacto social com esse perfil. Para Renan Costa, gerente de busca e seleção da Artemisia, o modelo realmente "atrai mais os investidores e a distribuição de dividendos indica sustentabilidade do negócio".

Dentro da visão da aceleradora cabe uma definição mais flexível de negócio de impacto social. Isso engloba empresas que atuam de alguma forma nas áreas abrangidas por políticas públicas, como educação e saúde - ainda que a aplicação das soluções propostas se dê no setor privado.

Assim, encaixam-se nos ciclos de aceleração da Artemisia empresas que criam serviços para auxiliar no desenvolvimento cognitivo e psicomotor de crianças e adultos, como a MonsterJoy. A startup desenvolveu um aplicativo com o objetivo de engajar pais e filhos nas atividades escolares. Segundo Costa, é um negócio social por ter impacto sobre o desenvolvimento das crianças na primeira infância e colaborar para que se tornem adultos melhores e mais preparados para a vida.

"Do ponto de vista de negócio, esses aplicativos são feitos para serem disponibilizados em escolas públicas, mas, por ser um processo moroso, o projeto piloto é feito em escolas particulares. Posteriormente, os software são vendidos para essas instituições também", explica.

Escolha

A linha da Artemisia é semelhante á do Instituto Quintessa, também de São Paulo e com foco em acelerar empresas de impacto social; Para Anna Aranha, gestora da aceleradora, independentemente da linha de pensamento, "modelos de negócio que não apresentam grandes trade-offs [conflitos de escolha] entre geração de impacto e resultado positivo tendem a ser vencedores". Além disso, argumenta, o desejo de realização material é legítimo, e pode ser visto como resultado da geração de riqueza para a sociedade, não apenas como objetivo final.

No momento de distribuir o resultado positivo, segundo a gestora, o empreendedor deve compartilhá-lho com aqueles que ajudaram a construir o valor criado - seja por meio de remuneração variável, participação dos colaboradores no negócio ou outras ferramentas. "É preciso não apenas atrair e reter talentos, mas compartilhar com eles o benefício gerado por sua dedicação ao projeto coletivo", afirma. 

Leia também: Empreendedorismo de impacto social pode movimentar R$ 50 bi em investimentos até 2020

Elaine Coutrin

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