São Paulo - A falta de uma regulamentação específica e o receio dos gestores quanto à substituição de seus serviços tendem a ser entraves para a ascensão das fintechs no mercado de capitais. O setor, porém, já projeta a mudança tecnológica e novos produtos no médio prazo.

Segundo dados do FintechLAb, enquanto o segmento de empréstimos, pagamentos e gestão financeira já representam mais de 50% do mercado, as startups para investimentos traduzem 10,7% do total de 177 iniciativas.

De acordo com o sócio fundador do Yubb e diretor da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs), Bernardo Pascowitch, além do mercado de capitais ser um segmento mais tradicional e que exige mais experiência dos atuantes, a falta de uma regulamentação específica também inibe o surgimento de iniciativas no setor.

"Enquanto os outros setores encontram brechas legais para atuar mesmo sem ser uma instituição financeira, faltam alternativas regulatórias no segmento de investimentos. São partes que, fora agentes autônomos, DTVMs [Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários] e gestoras, são difíceis de serem regulados adequadamente", pondera o executivo.

Dessa forma, ainda que o arcabouço legal da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para o mercado de títulos seja amplo, as startups financeiras ainda pressionam pela necessidade de normas específicas para sua atuação.

"Por mais que a grande maioria das fintechs tentem se encaixar na regulação vigente como podem, ainda existem verticais e modelos de negócios que dependem de mudanças e até engenharias legais específicas para que sejam viabilizadas", explica o CEO da Magnetis, Luciano Tavares.

Nesse sentido, apesar de os especialistas reforçarem que a atenção que o Banco Central e a CVM já têm dado para as empresas tecnológicas - principalmente com a consulta pública iniciada pela autoridade monetária para viabilizar uma regulação específica para fintechs de crédito -, o mercado de capitais ainda pode "demorar" a ter novas regras.

"Já tivemos conversas com a CVM, Anbima [Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais], com a B3 e com o BC para entender melhor onde podemos melhorar a regulação, mas não há horizonte de quando alguma mudança vá acontecer", afirma Pascowitch.

Ele destaca, no entanto, que a "preocupação em transparência" dada pelos órgãos reguladores e agentes do setor, deve facilitar o processo. "Tende a ser um trabalho em conjunto que vise aprimorar as práticas do mercado", diz.

Da outra ponta, porém, os agentes financeiros já atuantes no mercado de capitais, mesmo demonstrando maior atenção e preparo tecnológico, ainda têm receio de que seus serviços sejam "substituídos pelos robôs das fintechs"

Para o diretor geral da Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias [Ancord], Emílio Otranto Neto, a preocupação do setor é que a "inclusão dos robôs afete o processo de intermediação dos profissionais com seus clientes".

"Todos os operadores e gestores do mercado falam disso. No entanto, essas ferramentas vieram para ficar e a preocupação principal é que elas substituam a figura do ser humano nesse processo", avalia.

Ele conta, no entanto, que a tecnologia já está embargada e que o investidor está cada vez mais preparado e exigente por essa tecnologia. Além disso, ele comenta que mesmo com a "presença imprescindível" do operador como intermediador de investimentos, as fintechs pressionarão para que esses agentes estejam "cada vez mais inseridos" na tecnologia.

"Os nossos profissionais terão que correr atrás para estar a par de todas essas ferramentas, principalmente porque o cliente já está. E o que já acontece é uma revolução do mercado como um todo para criar novas plataformas e avançar suas tecnologias", analisa Otranto Neto.

"Quem não estiver inserido, ficará de fora", completa o diretor geral da Ancord.

Microinvestimentos

Ao mesmo tempo, os agentes do mercado de investimentos reforçam a tendência de que novos produtos surjam no médio prazo, uma vez que a tecnologia amplia o acesso aos títulos e traz cada vez mais novos investidores ao setor.

"A antiga estrutura de grandes bancos limitava o acesso ao mercado de capitais, situação que já está mudando e se democratizando. As fintechs trazem produtos melhores e com montantes iniciais mais acessíveis, principalmente para suprir essa nova demanda que chega", reitera o diretor da Órama, Márcio Alves.

Segundo Tavares, da Magnetis, a tendência é ser cada vez "o mais acessível possível".

"Ainda não existe isso no Brasil por limites operacionais do sistema. Mas os microinvestimentos já são trabalhados no exterior e a expectativa é que os mínimos de investimentos fiquem cada vez mais baixos, até eventualmente chegar a centavos", completa. "É trazer a possibilidade de aplicar para os 99% dos brasileiros que não possuem milhões de reais na conta", conclui.