São Paulo - Com aproximadamente 70 unidades produtivas paralisadas, a indústria do aço no Brasil corre o risco de amargar uma nova queda das vendas neste ano. Mesmo trabalhando para elevar as exportações, o setor não enxerga uma retomada no curto prazo.

Em entrevista ao DCI, o presidente executivo do Instituto Aço Brasil (IABr), Marco Polo de Mello Lopes, afirma que as projeções para o ano estão sob revisão. Até o momento, a entidade prevê um crescimento de apenas 1,3% das vendas domésticas.

"Estamos revendo os números para o ano. Diante do cenário atual, certamente vamos revisar as projeções para baixo", pondera.

O dirigente explica que as medidas que o governo federal vêm tomando ainda não surtiram efeito, e que devem gerar impactos somente no curto e médio prazo.

Ele acrescenta ainda que os setores demandantes de aço - exceto o automotivo - continuam em queda. "A construção civil deve ter uma nova retração e a expectativa para máquinas e equipamentos é de estagnação."

Para atravessar a crise, as siderúrgicas estão trabalhando para elevar as exportações. Contudo, diante da sobrecapacidade global de 800 milhões de toneladas, as empresas estão exportando prejuízo.

"Muitas vezes, as siderúrgicas só exportam para manter as linhas funcionando, porque as margens são muito pequenas", relata. "E mesmo com a paralisação de dezenas de equipamentos, o setor ainda tem 40% de ociosidade."

Neste cenário, o dirigente afirma que o governo precisa melhorar o Regime Especial de Reintegração de Valores Tributários para as Empresas Exportadoras (Reintegra), que devolve parcial ou integralmente o resíduo tributário na cadeia de bens exportados. A lei permite devolução de até 5% da receita com exportações, mas a alíquota está em 2%.

"Estamos trabalhando com outros nove setores da indústria para melhorar as condições do Reintegra."

O presidente do IABr relata que a situação da indústria siderúrgica é muito instável no mundo. "Temos 800 milhões de toneladas de excesso de capacidade global e mais da metade se encontra somente na China", diz Lopes.

O dirigente observa ainda que o maior país consumidor de aço do mundo, os Estados Unidos, está fechando as suas portas para a importação.

"Por esses motivos o cenário internacional é tão complicado para o nosso setor", pontua.

Instabilidade

Segundo o balanço mais recente do IABr, a produção de aço bruto atingiu 14,1 milhões de toneladas no acumulado de janeiro a maio, um aumento de 14,2% quando comparado ao mesmo período de 2016.

No entanto, Lopes justifica que o crescimento se deve basicamente ao ramp up da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), que começou a operar neste ano.

"Estamos atravessando uma crise sem precedentes. Há uma convergência de fatores conjunturais e estruturais, que impactam fortemente o desempenho do nosso setor."

De janeiro a maio, as vendas internas atingiram 6,6 milhões de toneladas, recuo de 2,2% em relação ao mesmo período de 2016. "O PIB [Produto Interno Bruto] pífio registrado até o momento é decisivo para o quadro de retração do setor."

Neste sentido, o dirigente do IABr afirma que a indústria não pode esperar para que as medidas tomadas pelo governo no âmbito econômico surtam efeito.

Lopes acrescenta ainda que, apesar da trajetória descendente dos juros, da inflação em queda e das reformas estruturais, a economia ainda se mostra estagnada.

"Nenhum dos segmentos industriais no Brasil tem uma situação tão perversa quanto a do aço. Para sobrevivermos no curto prazo, o governo precisa avançar com a melhoria do Reintegra", complementa.

A indústria siderúrgica fatura R$ 66 bilhões e emprega, atualmente, cerca de 105 mil funcionários: desde janeiro de 2014, o setor demitiu 46.788 pessoas, segundo dados do IABr. Só no segundo semestre do ano passado, foram fechados aproximadamente 11 mil postos de trabalho.

"A situação é alarmante", avalia Lopes. O dirigente declara não enxergar uma retomada efetiva do mercado no curto prazo. "A indústria do aço retrocedeu uma década."