SÃO PAULO -  O Brasil conta desde 2009 com normas de medida e etiquetagem para o vestuário infanto-juvenil e, a partir de abril deste ano, foram publicadas também as normalizações para roupas masculinas. No entanto, os parâmetros para a moda feminina, segmento que representa mais da metade da confecção do País, ainda aguardam tradução dos padrões definidos pela Organização Internacional para Padronização (ISO, na sigla em inglês), para que seja iniciado o processo de discussão local, com previsão de conclusão apenas em 2014.



A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) registra, desde dezembro de 2009, a venda de 465 normas ABNT NBR 15800:2009, que definem as referências para roupas de bebês e infanto-juvenis. De maio de 2012 até o momento, foram vendidas 32 normas ABNT NBR 16060:2012, que estabelecem os padrões para roupas masculinas.



Embora as 497 normas vendidas não representem necessariamente o número de empresas que já adotaram a mudança, pois um mesmo modelista pode produzir moldes para mais de uma confecção, trata-se de um resultado ainda tímido, se considerado o fato de o Brasil contar com 23,7 mil confecções, entre vestuário e meias, segundo dados da Associação Brasileira do Vestuário (Abravest). Do total de roupas produzidas, 23% são do segmento infanto-juvenil, 20% masculino e 57% feminino.



"Começamos pelo infantil porque foi o grupo que primeiro se arregimentou, no masculino algumas confecções sentiram essa necessidade, já no feminino, há um grupo de pluz size que já demonstrou interesse pela normalização, mas eu diria que essa discussão ainda não está nem no berço, está no útero", afirma a superintendente da ABNT, Maria Adelina Pereira.



Segundo ela, ainda é necessária a tradução das normas ISO para vestuário feminino. Depois disso, têm início reuniões envolvendo indústria, varejo e "neutros" (como escolas de modelagem e centros de pesquisa). O texto só é finalizado com o estabelecimento de um consenso entre as partes. Em seguida, ocorre um processo de consulta pública pela Internet, aberta a qualquer interessado. "No infantil e no masculino, para cada uma delas, o processo levou dois anos. Então, eu não arriscaria menos do que 2014 para o feminino", diz.



A representante da ABNT explica que as novas normas não padronizam as roupas, mas sim, como indicar ao consumidor a que corpo a roupa serve. É recomendada a adoção de etiquetas com um pictograma (desenho de uma figura humana) e a indicação de medidas. No infantil, utiliza-se a altura da criança; já no masculino, o perímetro do tórax e, para calças, o perímetro da cintura e comprimento entrepernas. No feminino, além dessas indicações, deverão constar medidas de busto e quadril. "A norma traz anexa uma tabela de referência para modelagem, mas é um exemplo, a adoção não é obrigatória", diz.



Redução de custo



O presidente da Abravest, Roberto Chadad, ressalta as vantagens do novo modelo. "Pode resultar em redução de utilização de tecidos de 3% a 8%, dependendo do produto, pois quando você corta diversos produtos com medidas padronizadas, tem uma redução do encaixe", explica. Para o varejo, a utilização de indicações mais precisas para o consumidor resulta em redução das trocas.



Além disso, o maior detalhamento facilita a venda de roupas pela Internet. Pesquisa da consultoria e-bit, divulgada em março, mostra que o brasileiro já compra mais roupas e acessórios do que livros e revistas pelo comércio eletrônico. Há dois anos, o segmento era apenas o 26º colocado no ranking. Agora, ocupa o quinto lugar. Dos 53,5 milhões de pedidos feitos em lojas virtuais em 2011, 7% se destinaram ao setor de moda e acessórios.



Quem já adequou a modelagem e adotou o novo padrão de etiquetagem se diz satisfeito. É o caso da confecção paulistana YKZ, que trabalha com moda infantil, uniformes escolares e vestuário profissional. "A mudança não representa praticamente nenhum custo, porque a cada coleção refazemos a modelagem, então isso foi só mais um item a ser considerado, mas não exigiu mão de obra ou tempo adicional", diz o proprietário Roberto Yokomizo.



A empresa, que fabrica 50 mil peças ao mês, também investiu em certificação, para aumentar a percepção de qualidade junto aos clientes. "O custo anual com a certificação não chega a R$ 2 mil, portanto não impacta o preço por peça", diz o empresário. Além de dar mais segurança ao consumidor na compra, ele acredita que a generalização da padronização trará mais justiça à concorrência no segmento de uniformes.



A mudança também já foi incorporada pela fabricante de manequins industriais Draft Manequins. "Já adotamos a mudança para masculino, bebê, primeiros passos e infantil, só juvenil que não, pois a norma não faz distinção de sexo, o que deverá ser mudado", diz a proprietária Elaine Radicetti. "O mercado está aceitando muito bem", conta ela, que tem entre seus clientes grandes indústrias como Brandili, Hering, C&A, Marisol e Malwee.