São Paulo - Apesar do crescimento das exportações do setor calçadista, os benefícios estão concentrados numa fatia pequena da indústria. Enquanto as grandes fabricantes avançam no exterior, pequenas e médias estão ficando fora do jogo.

"Vivendo um movimento de fortalecimento das empresas de maior porte no mercado internacional", observa o consultor de Inteligência Comercial da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) e professor do Programa de Pós-Graduação em Economia da Unisinos, Marcos Lélis.

Segundo ele, a questão cambial vem ajudando empresas que encontram nas vendas ao exterior uma alternativa para seus produtos em relação ao mercado interno. No entanto, Lélis observa que as fábricas menores estão perdendo essa possibilidade, em razão da crise econômica, que reduziu a capacidade investimento em capacidade produtividade, inovação e desenvolvimento de novos produtos. "Essas empresas trabalham no limite e não estão conseguindo acompanhar o aumento da demanda", ressalta ele.

A consultoria IEMI - Inteligência de Mercado projeta produção de 936,2 milhões de pares este ano, uma alta de 3% frente a 2016. Porém, o montante é inferior a produção de 2014, quando chegou a 1,018 bilhão de pares. "O setor ainda não conseguiu recuperar o espaço perdido no mercado interno", afirmou o diretor do IEMI, Marcelo Prado. "Neste cenário [de queda], as pequenas e médias sofrem mais", acrescenta ele.

Por outro lado, Abicalçados informa que, entre janeiro e junho, foram embarcados 59,36 milhões de pares, aumento de 2,5% sobre igual intervalo do ano passado. A receita obtida com as exportações no período somaram US$ 528,8 milhões, incremento de 17% - puxada, sobretudo, pela alta média 15% nos preços.

O presidente-executivo da Abicalçados, Heitor Klein, avalia que as grandes indústrias têm mais capacidade de acessar o mercado externo, o que requer uma sofisticação adicional, em termos de envolvimento comercial e estruturação produtiva - algo mais restritivo à pequena e média indústria calçadista. De acordo com ele, porém, há importantes exemplos de empresas pequenas que produzem em menor quantidade, mas vendem com alto valor agregado, que participam do programa setorial de incentivo à exportação Brazilian Footwear.

O diretor da Focal, Gustavo Campos, consultoria que atua no setor calçadista, avaliou que o cenário de recessão interna prejudicou a competitividade e reduziu a rentabilidade das companhias. Nos cálculos dele, cerca de dez marcas concentram aproximadamente 50% das vendas. "O caminho para a indústria é investir na produção e no fortalecimento da marca."

Alpargatas

Enquanto as pequenas e médias sofrem para conquistar fatia de mercado, as grandes companhias devem abocanhar mais espaço, sobretudo no exterior. A principal delas é a Alpargatas, que passou a ser controlada pela Itaúsa (holding de investimentos do Itaú) e a Cambuhy/Brasil Warrant (braços de investimento da família Moreira Salles), numa operação que movimentou R$ 3,5 bilhões.

"É um novo grupo, com mais tempo no mercado, experiência financeira e espírito empreendedor, desembarcando na Alpargatas", avalia a analista da Eleven Financial, Giovana Scottini. Na sexta-feira (14), em sua primeira manifestação após a aquisição, a Itaúsa informou que quer expandir a presença internacional da Havaianas - principal marca da empresa. O foco será ampliar o alcance da companhia, sobretudo nos Estados Unidos.

"A Havaianas é um caso exemplar de inserção internacional de um produto básico, que se transformou num produto de alto valor agregado", diz Klein. Só os negócios internacionais de sandálias somam 58% de receita da Alpargatas.