Direto da China Adriane Castilho Editora de Abertura
02/08/2017 - 13h10

Um rio, uma usina, uma via e múltiplas conexões

Hidrelétrica de Três Gargantas testa elevador de navios para melhorar fluxo no rio Yangtzé, plataforma da província de Hubei para o mercado doméstico e o comércio exterior

YICHANG e WUHAN- Está prevista para 18 de setembro, após um ano de testes, a inauguração de um elevador para navios de pequeno porte, até 3 mil toneladas, passarem separadamente pela represa de Três Gargantas, na província de Hubei, região central da China. O objetivo é melhorar o fluxo de embarcações pelo rio Yangtzé, importante via de conexão entre as regiões leste e oeste do país e plataforma também para o comércio exterior.

A represa que alimenta a usina hidrelétrica de mesmo nome já conta com uma eclusa de barcos em duas vias, com cinco degraus, que liga a via fluvial com o porto de Shanghai. A eclusa recebe navios de passageiros e cargueiros de até 10 mil toneladas, que levam de três a quatro horas para vencer um desnível de 113 metros de altura. Com o elevador, os barcos menores poderão subir esse trecho em 40 minutos, diz Peng Minnin, funcionária da China Three Gorges (CTG), administradora da usina, instalada na cidade de Yichang. A estatal tem operações em outros países, inclusive no Brasil, onde concluiu recentemente a compra dos ativos da Duke Energy e das usinas de Jupiá e Ilha Solteira, que eram da Cesp.

Embora a usina de Três Gargantas seja a maior do mundo em capacidade instalada, com 22,5 mil megawatts (MW) - Itaipu é a segunda, com 14 mil MW -, gera atualmente cerca de 5% da energia elétrica consumida na China, de 5,9 trilhões de KW/h em 2016, em estimativas não oficiais. Questionados sobre os números, funcionários da CTG e da administração local dizem que isso está relacionado a outro papel da represa: o de controlar as inundações que historicamente devastavam as regiões à beira do Yangtzé.

A proposta de uma obra capaz de conter as enchentes do rio vem desde o início do século passado, em diferentes versões.  O projeto que finalmente foi implementado levou décadas para sair do papel e contempla três objetivos: controlar as inundações, ampliar a navegabilidade e gerar energia.

A construção do lago e das instalações exigiu o deslocamento de 1,4 milhão de pessoas. Segundo a CTG, porém, o represamento do rio beneficiou uma população de 50 milhões de pessoas que vivem na região antes afetada pelas cheias. É uma área no trecho central do Yangtzé, o rio mais extenso da China, que atravessa diversas províncias ao longo de seus 6.300 km. Por estar nesse ponto central, a província de Hubei conduz outro projeto relacionado ao aproveitamento do rio.

Cinturão econômico

O projeto do Cinturão Econômico do Rio Yangtzé envolve 11 províncias e municípios (Shanghai, Jiangsu, Zhejiang, Anhui, Jiangxi, Hunan, Chongqing, Sichuan, Yunnan e Guizhou, além de Hubei) que respondem por mais de 40% da população e do PIB da China. Uma comissão formada em 2009 em Wuhan, capital de Hubei, trabalha para ampliar as instalações e integrar melhor as operações dos diversos portos no curso mediano e superior do rio.

A partir de um plano de desenvolvimento aprovado em 2011, o Novo Porto de Wuhan já elevou sua capacidade de armazenamento e movimentação de contêineres de 1 milhão de unidades de 20 pés (TEU) em 2014 para 1,13 milhão em 2016. As melhorias iniciais permitiram reduzir em 40% o custo de transporte de contêineres entre Wuhan e Shanghai, diz a diretora da comissão. As obras devem ser concluídas até 2020.

O objetivo de longo prazo é fazer de Wuhan o maior porto fluvial do mundo, com uma capacidade de carga e descarga geral de 1 bilhão de toneladas ou 10 milhões de TEU até 2030, diz David B. M. Xie, CEO da operadora CIG Yangtze Ports, dona de 85% da empresa de contêineres WIT. A companhia atua em Wuhan e em todo o conjunto de portos desse trecho do rio, considerado estratégico por permitir o transbordo de cargas com origem na região oeste da China para conexão com o porto de Shanghai, com saída para o mar.

Assim, com um porto fluvial que já é o maior desse tipo na China, a capital da província atua como via de acesso para a região oeste do país. E também dá vazão à produção local de veículos (fica em Wuhan a Dongfeng, segunda maior montadora chinesa), fibras ópticas (a FiberHome é uma das maiores players globais), produtos químicos, siderúrgicos (é sede da Wisco, que chegou a cogitar um investimento de US$ 5 bi no Brasil em parceria com a EBX de Eike Batista), alimentos frescos e congelados da província - Hubei é conhecida na China como a terra do arroz e dos peixes.

A interligação do porto com a malha ferroviária e rodoviária, a localização central e a conexão com Shanghai fazem também de Hubei uma via para o mercado externo. O diretor do departamento comercial do Escritório de Assuntos Internacionais da província, Deng Qian, diz que o volume de trocas comerciais com a América Latina atingiu 17,1 bilhões de iuanes (cerca de R$ 8,6 bilhões) em 2016, com 10,5 bi de iuanes em exportações e 6,6 bi em importações. Os maiores parceiros comerciais são Brasil, México e Peru. Com o Brasil, o volume total em 2016 atingiu 6,2 bilhão de iuanes (R$ 3,1 bilhões), com exportações de 3,816 bi e importações de 2,349 bi.

O comércio exterior ajuda a movimentar a economia de Wuhan, cidade de 12 milhões de habitantes, e de Hubei, com 62 milhões de habitantes. O PIB da província cresceu 8,1% em 2016, para 3,23 trilhões de iuanes (aproximadamente R$ 1,6 trilhão), o que a coloca em sétimo lugar na China. 

(A jornalista viajou a convite da Associação de Diplomacia Pública da China)

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