SÃO PAULO - O mercado de telecomunicações espera uma reação ainda mais forte da Telefônica, a fim de defender sua posição sobre a compra da operadora GVT, tão logo o grupo francês Vivendi efetive nova proposta de aquisição da operadora brasileira. A entrada de um novo player no mercado nacional de telecom pode ameaçar a posição da espanhola Telefônica. A Vivendi deu o primeiro passo para contra-atacar a Telefônica na aquisição da GVT, com posicionamento favorável a uma nova oferta de compra, o que seria uma contraproposta a R$ 48 por ação ofertados pela Telefônica no início do mês. Os franceses se veriam obrigados a superar os R$ 6,5 bilhões ofertados pela Telefônica há menos de 15 dias. Na prática, a Vivendi teria de desembolsar pelo menos 25% a mais do que a proposta feita inicialmente, de R$ 5,4 bilhões (R$ 42 por ação).
Por outro lado, a proposta agressiva da Telefônica pela GVT, que se valeu inclusive de uma oferta pública de ações, dá indícios de que a empresa esteja tentando uma nova compra defensiva como forma de eliminar a concorrência, como avalia Luiz Henrique Barbosa, economista responsável por regulação e infraestrutura da Associação Brasileira das Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas (TelComp ).
Segundo Barbosa, a intenção da Telefônica com a compra da GVT não é necessariamente expandir a atuação para fora do Estado de São Paulo, uma vez que a empresa já tem autorização para atuar nas demais regiões do País. Barbosa salienta que, assim como ocorreu nos últimos anos, quando a Telefônica comprou empresas como a Atrium Telecom, em 2005, e a TVA, em 2006 para manter um ambiente de competição menos agressivo, a compra da GVT se daria em um momento em que a empresa ainda se recupera de baixas importantes, como as multas e a proibição da comercialização do Speedy (seu produto de banda larga) durante os meses de junho e agosto deste ano.
"Se a Telefônica quisesse expandir seu mercado com a compra da TVA, seria esperado um aumento da atuação de mercado depois da compra, o que não se deu", afirma Barbosa. A TVA era, à época, uma possível concorrente da Telefônica no mercado de triple play (serviços de banda larga, voz e TV por assinatura).
Segundo o site da consultoria Teleco, entre 2008 e 2009, o market share (participação no mercado) da Telefônica na prestação de serviços de televisão por assinatura cresceu 7,6%. Apesar do aumento, o desempenho da operadora foi o terceiro dentre as quatro concorrentes no País.
Para a Oi, o cenário competitivo do País também seria desfavorável com a entrada de uma nova empresa - no caso, a Vivendi, caso efetue a compra -, segundo Eduardo Tude, consultor da Teleco. "Todo novo entrante chega agressivo", afirma. Tude considera que para o consumidor não há sem dúvida de que um cenário mais competitivo é melhor. Para as operadoras, uma nova empresa que atuaria também na área de celular forçaria os preços para baixo, "o que poderia derrubar as margens de lucro", afirma.
Para a GVT, segundo Tude, qualquer dos cenários seria bom: "Para competir nacionalmente, é preciso uma operadora de porte".
Luiz Henrique Barbosa também atenta para o fato de que somente após a oferta de uma empresa internacional sobre a GVT é que a Telefônica "se mobilizou a fazer uma oferta hostil, inclusive com oferta pública de ações", completa. Para ele, o ambiente de competição ficaria mais acomodado sem a entrada de um novo player. Como subsidiária de uma empresa que já atua no mercado - no caso, a Telefônica -, a GVT passaria a pressionar menos por uma regulação pró-competição, afirma Barbosa.
Em comunicado divulgado ontem, a GVT informou que recebeu da Vivendi um posicionamento favorável a uma nova oferta de compra, uma contraproposta aos R$ 48 por ação ofertados pela Telefônica.
No comunicado a GVT afirma que foi informada na última sexta-feira pelos acionistas da Vivendi de que a empresa "concluiu de forma satisfatória a diligência legal na GVT" e que o conselho administrativo da operadora francesa havia autorizado a diretoria da empresa "a fazer uma oferta de aquisição de ações" de 100% da operadora brasileira.
Ações
Para Luciana Leocadio, analista-chefe da Ativa Corretora, caso a compra da operadora brasileira seja efetivada pela francesa Vivendi, o que significa mais um player no mercado, o valor das ações tende a subir. Segundo ela, cenário oposto ao que se configuraria no caso da compra pela Telefonica, no qual "as ações devem cair um pouco", afirma.
Na semana passada, as ações da GVT subiram na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) com os rumores de que a Vivendi faria uma nova oferta pela operadora.
Com a afirmativa da Vivendi à nova oferta pela brasileira GVT, o mercado aguarda nova ofensiva da Telefônica, que deve manter ambiente de competição favorável, evitando a entrada de novo player no mercado.