07/07/08 - 00:00 > COMÉRCIO EXTERIOR

Furlan prevê que Doha pode amenizar crise de alimentos


ROBSON GISOLDI
SÃO PAULO - O ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, afirmou em entrevista exclusiva ao DCI que, no momento em que o mundo está na iminência de uma crise de alimentos, a aprovação da Rodada de Doha seria uma saída significativa para amenizar a crise. "Torço muito pela aprovação, pois ela beneficiaria a todos. No momento em que o preço dos alimentos aumenta, a redução de tributos e barreiras podem ajudar a baratear os produtos", acredita.



No entanto, o ex-ministro sinaliza que certos entraves prejudicam o consenso entre os países. Um exemplo apontado por Furlan é a recente política agrícola americana, que não trouxe redução de subsídios ao setor. "Decisões como essa acabam jogando contra. A Rodada não anda porque países como Estados Unidos, China, Índia e a União Européia não abrem mão dos subsídios", informa.



Furlan acrescenta que está otimista com a aprovação do tratado em julho, mas caso não ocorra, a decisão deverá ficar só para o próximo ano, já que as eleições americanas impossibilitarão essa discussão. Na opinião do presidente do Conselho de Relações Internacionais da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP), Mário Marconini, Furlan está correto ao afirmar que a crise de alimentos é mais uma razão para a provação da Rodada. "Concordo porque, num momento como esse, é preciso liberar a produção e não ficar restringindo. Não há duvida de que qualquer eliminação de barreiras vai ajudar quem é competitivo no setor", informa.



O representante acrescenta que a "Argentina ainda tem essa visão um pouco distorcida da necessidade de restringir a exportação", fato que prejudica um pouco o Brasil, já que as negociações são feitas pelo Mercosul. Além disso, os "elementos preocupantes" da lei agrícola americana "mostram que Washington está com uma posição complicada", observa Marconini.



Segundo o especialista no assunto, está na hora das nações desenvolvidas pararem de gastar com subsídios. "Sinto que as negociações estão num estágio comum. O momento entre a finalização do texto e a reunião dos ministros, torna as coisas meio difíceis nessa hora", diz. Para finalizar, o especialista disse que está realista com a possibilidade da Rodada sair nesse mês. "Pode acontecer, mas infelizmente, tem vários fatores que podem travar o acordo", encerra.



Na última semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que acredita em um acordo nas negociações da Rodada Doha até o final de julho. Na ocasião, citou o confronto em torno dos subsídios agrícolas e bens industriais e disse que o Brasil deve flexibilizar a entrada de produtos industrializados. Lula informou que o Brasil tem uma posição clara na Organização Mundial do Comércio (OMC) e se queixou dos subsídios agrícolas. Ainda segundo Lula, a contrapartida pedida é que todos os países, assim como o Brasil, flexibilizem a entrada dos produtos industrializados em seus mercados.



Para o gerente-geral do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), Rodrigo Lima, a Rodada pode ajudar na queda dos preços, mas é preciso cautela. "Se você analisar pela perspectiva da redução de tarifas e subsídios, seria uma forma de diminuir o protecionismo. Além de permitir que os produtos não tenham os preços artificialmente mantidos", observa.



Lima acrescenta que tudo depende da adesão dos países desenvolvidos. "Em tese poderiam cair os preços, o problema é até que ponto a redução de subsídios seria substancial. Concordo que o fechamento da Rodada pode ajudar na questão de trazer uma certa segurança nas normas de comércio internacional. O ponto mais delicado dos preços dos alimentos é, sem dúvida, o petróleo", acredita.



Na mesma ocasião, Furlan também defendeu a estratégia brasileira de defender a todo custo a qualidade do etanol nacional. "A campanha está sendo bem-sucedida, fazendo a diferenciação entre o etanol brasileiro e o americano. Tenho certeza que esse produto tem tudo para ser a grande commodity do século XXI", prevê o ex-ministro.



Amazônia



Furlan também fez um ataque aos que defendem a internacionalização da floresta amazônica, medida que, para ele, é inadmissível.



"É impossível o Brasil abrir mão da soberania na região. Por isso é preciso que se crie uma base legal forte nacional e um plano de desenvolvimento sustentável para a Amazônia", informa. Já em se tratando de Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), do governo federal, Furlan preferiu não opinar. "Eu já sou passado", encerra o ex-ministro.



Luiz Fernando Furlan foi homenageado na última semana pelo Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE). Antes de assumir o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Furlan foi, até 1993, presidente do Conselho de Administração da Sadia S.A., empresa em que atuou desde 1976.



  COMENTÁRIOS
Comente esta notícia. Aqui, o que vale é a sua visão do que acontece no país e no mundo.

Seu comentário será publicado após revisão da Redação do DCI Online. Textos com palavrões e/ou ofensas não serão publicados.

Clique aqui para comentar