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08/06/09 - 00:00 > COMÉRCIO EXTERIOR
Brasil promete deixar de importar da Argentina


Karina Nappi
SÃO PAULO - Depois dos resultados da reunião entre empresários brasileiros e argentinos, no final da semana passada, em Buenos Aires, o governo brasileiro pretende ter uma postura mais dura para com o país vizinho, deixando de importar da Argentina produtos como trigo e leite em pó. Esta decisão mostra que o governo não pretende mais abrir concessões comerciais aos argentinos, consideradas antes uma saída para melhorar a corrente comercial com aquele país.
Segundo Roberto Segatto, presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior (Abracex), "o Ivan Ramalho [secretário executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior -Mdic] está tomando nota das dificuldades enfrentadas pelos empresários brasileiros e há a tendência de se posicionar fortemente contra as medidas impostas pela Argentina. Ele deve confrontar as imposições com outras imposições, do mesmo nível, como fez com o leite em pó".
Segatto disse ainda que o governo sabe que a Argentina está colocando diversas dificuldades para que seus empresários não comprem produtos do Brasil.
Durante o encontro, alguns empresários argentinos disseram que estão interessados em comprar eletrodomésticos de linha branca, além de vestuário e calçados brasileiros, mas que as tarifas brasileiras e as barreiras argentinas não facilitam o comércio entre os dois países que fazem parte do Mercosul.
"O Brasil perdeu mais de 20% do comércio com a Argentina para os chineses, e, além da desvalorização do dólar frente ao real que dificulta as exportações, existem algumas travas impostas pelos argentinos. Contudo, os brasileiros negociam preços e condições de pagamento, o que favorece o comércio", disse Segatto.
"Não gostamos de comprar da China, mas os preços deles [chineses] ficam mais barato do que os dos brasileiros. Prefiro a troca de exportações: temos mercadorias, como azeite, anchovas e presunto, que perderam mercado no Brasil em razão desses conflitos comerciais", informou um empresário argentino.
A balança comercial entre os países apresentou no primeiro quadrimestre deste ano uma queda de 98, 32% no saldo, no entanto, ele permanece positivo em US$ 18,5 milhões para o Brasil, mesmo com o resultado de abril negativo em US$ 28 milhões.
Móveis
Durante a rodada de negócios, os fabricantes brasileiros de móveis se comprometeram com a redução em 35% de suas exportações ao mercado argentino este ano: se utilizarmos o valor obtido nas vendas do ano passado que foram de US$ 41 milhões, haveria uma queda de US$ 14, 35 milhões. A porcentagem foi definida depois de dez horas de discussões, durante as quais os empresários moveleiros argentinos tentaram levar a restrição aos móveis brasileiros a mais de 40% do total do ano passado, entre outras exigências que indignaram os produtores brasileiros.
"Dos males, o menor", opinou o presidente da Associação Brasileira de Indústrias de Mobiliário (Abimóveis), José Luiz Diaz Fernandez, depois de um dia inteiro de discussões com empresários argentinos. Segundo ele, no primeiro semestre deste ano, a participação do Brasil no mercado argentino de móveis caiu de 57% para apenas 28%. No mesmo período, a participação das importações chinesas aumentou de 12,5% para 24%.
"Nossas importações estão zeradas desde março, totalmente paralisadas pelas medidas adotadas pela Argentina", lamentou.
Ivan Ramalho admitiu que as medidas protecionistas aplicadas pela Argentina estão prejudicando 14% das exportações brasileiras. O secretário mostrou-se preocupado, também, pelos escassos acordos alcançados desde que foram iniciadas as negociações entre privados.
"Ainda é baixo o resultado alcançado", disse Ramalho.
"Não sabemos qual outra troca ele [Ramalho] fez, mas para o setor mobiliário essa redução é muito ruim. Poucos países podem concorrer com os móveis brasileiros. Nosso produto tem qualidade, quantidade e diversidade", afirmou Segatto, enquanto acrescentava que a decisão irá "acarretar para a indústria de móveis uma diminuição de produção, que remete à demissão de funcionários e a menor recolhimento de impostos e tributos".
Este mecanismo foi adotado pelos governos desde a onda de disputas no comércio bilateral originada em 2005, quando a Argentina adotou restrições à entrada de eletrodomésticos brasileiros.
"Estamos negociando um acordo de comércio", explicou Mariano da Vega, assessor da câmara argentina de fabricantes de embreagens e freios para automóveis, que considerou inconveniente a aplicação de salvaguardas à importação dos produtos a partir do Brasil.
Freios
O Sindicato Nacional de Componentes para a Indústria de Veículos Automotores (Sindipeças), que representa os fabricantes brasileiros de autopeças, aceitou reduzir em 30% as exportações brasileiras de freios à Argentina, no segundo semestre deste ano, em comparação aos primeiros seis meses de 2009. "Ainda não temos o número exato do que representa esse percentual, mas fazer o acordo é melhor do que enfrentar uma dificuldade maior", disse o presidente do Sindipeças, Paulo Butori. Entre as dificuldades, ele citou as mercadorias barradas na alfândega por medidas como as licenças não-automáticas ou os valores de referência.
Butori detalhou que, em 2008, o setor exportou à Argentina US$ 15 milhões em freios, mas este volume, nos primeiros cinco meses de 2009, já sofreu uma queda de 37%. Mesmo assim, o empresário se resigna: "É o acordo possível neste momento".
No que diz respeito às exportações das embreagens, os empresários decidiram aceitar uma redução de 40% de seu envio, em comparação ao vendido em 2008. "Essa redução será feita somente nos modelos de fabricação comum", esclareceu o presidente do Conselho Administrativo do Sindipeças, Antônio Carlos Meduna. Os brasileiros se comprometeram a reduzir os cerca de 500 tipos de embreagens vendidos à Argentina a apenas 75 modelos para não competirem com os argentinos.
Este é o terceiro acordo que o Sindipeças fecha com a Argentina para restringir as vendas ao mercado do país vizinho.
Trigo
O governo da Argentina comunicou o Brasil de que não tem mais trigo para exportar. "Eles nos comunicaram de que não vão ter trigo", disse o secretário de Comércio Exterior do Mdic, Welber Barral, depois de reunião de negócios em Buenos Aires.
As autoridades brasileiras já esperavam a notícia, mas faltava uma comunicação oficial. Com os impostos que o governo de Cristina Kirchner cobra pelas exportações agropecuárias, o clima de confronto que mantém com os produtores rurais há mais de um ano e a pior seca da história do país, a produção de trigo despencou. No caso da safra 2008/2009, a produção de trigo caiu de 12 milhões para 8,5 milhões de toneladas. A Argentina consome 6 milhões de toneladas e o restante é usado para manter uma reserva estratégica do alimento.
Além disso, o governo argentino tem a estratégia de desenvolver suas exportações de produtos industrializados para agregar valor. Por isso, Cristina estimula a exportação de farinha de trigo, que paga um imposto de 18%, em lugar do trigo em grão, taxado em 28%. Com a menor produção de trigo da Argentina, o Brasil vai ter de comprar trigo de países como Canadá e Estados Unidos.

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COMENTÁRIOS
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Alecs Rocha - alecsrocha@yahoo.com.br
Já era tempo.
Temos que tomar cuidado nesse momento para não gerar mais desemprego, porém já era tempo, de tomarmos uma posição contra esses argentinos, que se acham, mas só se acham...
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