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06/08/09 - 00:00 > OPINIÃO
Os dois senadoresNinguém está exigindo que Sarney seja um herói nacional, como Pac- ciardi é da Itália, França e Europa


Nunca uma mulher foi tão bela
ftp://dci:climatempo@201.63.217.90 Pois essa história houve. Não bem assim, mas quase assim. O dono dessa eterna história de amor e guerra, resistência e liberdade, que fez de "Casablanca" um dos três mais citados em todas as listas dos melhores filmes, existiu e o conheci. Morreu em Roma em abril de 91, com 92 anos.
O filme, todos o vimos. Um tcheco, Victor Lazlo, guerrilheiro, líder antinazista, caçado por Hitler na Europa inteira, chegou a Casablanca com a mulher, para conseguirem passaportes e fugirem, porque Marrocos ainda era francês, embora os alemães, ocupando a França, também lá estivessem.
Ingrid
O tcheco vai com a mulher, a luminosa e doce Ingrid Bergman, ao cassino para um encontro, atrás de passaportes falsos. No piano, um negro. A mulher de Lazlo o reconhece: "Sam, toque aquela canção". Ele diz que o patrão proibiu. Ela insiste, de repente aparece o dono do cassino, Rick, o elegante Humphrey Bogart, cigarro nos dedos, e manda: "Toque".
Ele toca "As Time goes by" ("Enquanto o tempo passa"). Os dois tinham sido namorados em Paris, até a ocupação alemã, quando fugiram, cada um para seu lado, e agora ela era a mulher do líder tcheco. Tiros, mortes, invasão do cassino, uma arrepiante "Marselhesa" cantada de pé.
Depois de noites desesperadas, acabam os dois, o tcheco e a mulher, fugindo para Lisboa em um velho avião, com passaportes arranjados por Rick, que, ajudado por um oficial francês, matou o comandante alemão que tentou impedir a fuga. No cassino, Sam tocava "As Time goes by".
Guerrilheiro
Este é o filme. Na vida, um pouco diferente, mas também fascinante. Randolfo Pacciardi nasceu em 1889. Jornalista, advogado e guerrilheiro, não era tcheco, era italiano. Em 23 interrompeu um comício de Mussolini na Praça Veneza e o já quase ditador o chamou de "advogadozinho idiota".
Quando Mussolini tomou o poder, Pacciardi entrou na luta, foi a Paris. Em 36, estourou a Guerra Civil espanhola, com Hitler e Mussolini apoiando Franco. Pacciardi, na Espanha, ajudou a fundar a "Brigada Garibaldi" com Malraux, Hemingway, o brasileiro Apolônio de Carvalho.
O Partido Comunista espanhol, que comandava a luta contra Franco, deu à Brigada Garibaldi a missão de ir a Barcelona matar os trotsquistas e anarquistas, que também lutavam contra Franco, mas Stalin queria aproveitar a guerra para liquidá-los. Pacciardi negou-se a cumprir a ordem.
De Gaulle
Pacciardi foi combater Hitler na França. De lá, seguiu para a África, a Argélia, para encontrar-se com De Gaulle. E acabou em Marrocos com a Ingrid Bergman, dentro de um filme. Perseguido pelos alemães e pelos italianos, internou-se em um hospital de Marrocos para operar-se, embora sem sentir nada. O médico negou-se a operá-lo e acabou descobrindo tudo.
O médico francês, amigo do comandante francês, levou Pacciardi para casa, arranjou-lhe um passaporte falso (René Pigot) e o embarcou no navio português Serpa Pinto. No navio, ele reencontrou, também fugindo dos alemães, e também com passaporte falso, uma namorada da juventude em Paris, agora mulher do também antinazista Mendes France, mais tarde primeiro-ministro da França, que lutava na resistência com De Gaulle.
Pacciardi
Em Nova York, Pacciardi conheceu Michael Curtiz, diretor de cinema de Hollyood, contou-lhe sua rocambolesca história. Curtiz chamou um roteirista, e nasceu "Casablanca".
Acabada a guerra, Pacciardi voltou à Itália, fundou o jornal La Voce Repubblicana, ajudou a fundar o Partido Republicano, elegeu-se para a Assembléia Constituinte e com Saragat tornou-se vice-presidente do Conselho no governo democrata-cristão de De Gaspari. E ministro da Defesa de 1948 a 53.
Togliati e o Partido Comunista italiano não lhe perdoaram jamais o ter-se negado a cumprir na Espanha as ordens de Stalin para eliminar os anarquistas e os trotsquistas, aliados deles. Fizeram uma campanha terrível contra Pacciardi, acusando-o de "traidor" e "vendido aos Estados Unidos".
Para Togliati, como Agildo Barata para Prestes, Pacciardi era um "bandido, lacaio da CIA".
Quando Berlinguer, líder do Partido Comunista Italiano, começou o eurocomunismo, os comunistas reviram o que diziam de Pacciardi e, no seu enterro, ele já era um "herói da Pátria, da liberdade".
Memórias
Em 1990, em Roma, conheci-o já velhinho, senador vitalício, com 91 anos e lançando suas memórias, Cuore da Battaglia, em que conta a história de "Casablanca". Morreu em abril de 1991. Fui ao enterro.
O tempo acabou iluminando o passado e mostrando a verdade de um bravo lutador internacional, que não desaparecerá enquanto, no cinema, a deslumbrante Ingrid Bergman fugir com ele, e Sam tocar, nos pianos do mundo, "As Time goes by", a canção do tempo que passa.
Ninguém está exigindo do senador Sarney que seja um herói nacional, como o senador Pacciardi é da Itália, da França e da Europa. Mas que ao menos pare de enxovalhar o Senado com uma biografia banhada em lama e mil negócios escusos no Maranhão, "enquanto o tempo passa".

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