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24/11/09 - 00:00 > INTERNACIONAL
Venda da Areva vira embate político entre França e EUA


Theo Carnier
SÃO PAULO - A venda da unidade de transmissão e distribuição da estatal francesa Areva, maior fabricante mundial de reatores nucleares, deve ser fechada antes do final do ano e abala o empresariado do país. Calcula-se que o negócio será fechado por uma quantia entre US$ 6 bilhões e US$ 7 bilhões, mas o preço não está em discussão. O centro do debate é a origem das ofertas pela unidade da Areva: a gigante norte-americana General Electric é apontada como favorita nessa corrida, e esse favoritismo mexe com o fortíssimo sentimento nacionalista dos franceses. O negócio interessa o Brasil, entre outros motivos porque a Areva trabalha com equipamentos para transmissão de energia em corrente contínua, considerada vital para grandes extensões territoriais, que são uma das características do País, e que ganham mais importância com os megaprojetos de energia que empresas e governo brasileiro planejam para os próximos anos.
Na França, o temor de que o negócio seja mesmo fechado com a GE coloca em segundo plano as outras duas ofertas pela estatal, que foram feitas pelo grupo japonês Toshiba e por um consórcio (esse sim) francês, formado pela Alstom e pela Schneider Electric. "Para nós, a perspectiva de que os norte-americanos vençam essa disputa traz mal-estar", reconhece um executivo de um conglomerado francês do setor elétrico. "Não é só uma questão de preço. É preciso levar em conta se vale a pena vender a Areva para um comprador indesejável". Sem dizer quem seria o indesejável, esse executivo diz que não tem restrição aos japoneses - o que mostra sem subterfúgios quem é considerado o inimigo.
O empresariado francês teme porque conhece a amizade de longa data do principal executivo da General Electric, Jeffrey Inmelt, com o presidente Nicolas Sarkozy. A imprensa noticiou que Inmelt esteve com Sarkozy em outubro. A comandante da GE na França, Clara Gaymard, informou que, no encontro, o executivo da companhia norte-americana reforçou o comprometimento da GE com a compra da unidade da Areva. Gaymard acrescentou mais um ingrediente de apreensão para os franceses ao dizer que Sarkozy teria considerado a oferta da GM bem-vinda.
"O cenário é cinzento, mas há tempo para mudar", assegura o diretor de um dos grupos rivais da GE na compra da unidade da Areva. Ele considera que o governo levará em conta, principalmente, o interesse francês em relação a esse negócio. "Não há porque vender a unidade para um grupo que vai comprá-lo para depois dividi-lo em vários pedaços, que depois serão revendidos".
O possível interesse da GE de fatiar a unidade da Areva depois de comprá-la é o argumento mais utilizado pelos que se opõem à venda para o grupo norte-americano (que, por seu lado, nega a possibilidade). A GE garante que não faria sentido adotar essa estratégia, já que esse mercado é dominado por grandes grupos e o futuro do setor aponta para a oferta integrada, que só é possível para conglomerados como a sueco-suíça ABB e a alemã Siemens.
A compra da unidade da Areva seria um importante impulso para a GE em várias áreas. Uma das principais seria a de equipamentos para High Voltage Direct Current (HVDC, sigla em inglês para a tecnologia de transmissão de energia em corrente contínua de alta tensão). Essa tecnologia é considerada a principal solução para a transmissão em vastos territórios, como o Brasil.
O grupo norte-americano ganharia força na competição com ABB e Siemens também em segmentos como buchas de alta tensão, capacitadores e circuit breakers de alta tensão, transformadores, reatores, sistemas de automação e até para-raios - mercado nem sempre lembrado quando se fala de alta tensão, mas que gira US$ 1 bilhão por ano no mundo. No total, o mercado em que a divisão da Areva atua, chamado de energia inteligente, deve girar US$ 12 bilhões até 2015.
Fora do embate direto entre franceses e norte-americanos, a japonesa Toshiba também sonha com a unidade da Areva para dar um passo decisivo para sua expansão fora da Ásia. De atuação pouco conhecida no Ocidente no segmento, essa área do grupo japonês tem forte presença em mercados emergentes, além dos asiáticos, em equipamentos de alta tensão.

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