O Brasil mostra a cada dia que deve sofrer pouco com a crise de crédito no mercado externo porque, além dos bons fundamentos da economia, não seguiu o alto crescimento global registrado nos últimos anos, analisa o economista-chefe da Bradesco Corretora, Dalton Gardiman.
"Quem não cola, não descola. Pode ter sido ruim não termos crescido tanto no passado, mas é positivo agora", disse Gardiman, da Bradesco Corretora, durante evento promovido pela Câmara de Comércio França-Brasil. Já para analistas dos bancos Santander e ABC Brasil, a tese do descolamento (decoupling) dos emergentes em relação à economia americana só se comprovará se o avanço da China continuar. Caso contrário, países como Brasil seriam prejudicados com a queda de preços das commodities.
Gardiman diz que o excesso de liquidez nos Estados Unidos foi a causa da atual turbulência e, agora, é papel dos emergentes melhorar o cenário. Para ele, o Brasil está em uma situação melhor que muitos países desenvolvidos. "Temos uma conta fiscal exemplar, enquanto França e Alemanha têm o dobro do nosso déficit".
A inflação baixa, a previsibilidade da política econômica e as altas reservas internacionais são outros fatores apontados pelo economista como determinantes para o bom desempenho do País em momentos de incerteza mundial. No entanto, ele faz ressalvas em relação às demais nações emergentes, inclusive a China. "Com uma inflação de 20% nos alimentos e câmbio fixo irreal, a China terá de resolver seus problemas para podermos prever um futuro promissor ao país".
Para Constantin Jancso, analista de renda fixa da corretora do Santander, a expansão da economia chinesa deve continuar e, com isso, o Brasil será beneficiado, mesmo em caso de recessão norte-americana. "Se a demanda chinesa continuar existindo, os preços das commodities continuarão altos e a balança comercial brasileira não será afetada", afirma. Segundo ele, a palavra "descolamento" não é exata para definir o processo pelo qual atravessam as economias emergentes, especialmente a brasileira. "O País não está tão sensível a fluxos de capital e níveis de aversão ao risco no mercado internacional".
No entanto, ele aponta que a demanda interna vem crescendo em 6% ao ano, enquanto a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) deve ter ficado em 5% em 2007. "O crescimento da demanda está um pouco mais forte do que a economia pode sustentar. Por isso, acho que a tendência é de que o Banco Central suba os juros em breve, independentemente da crise externa", diz. Ele lembra, no entanto, que caso haja uma desaceleração da economia americana acompanhada de uma queda do desempenho da China, os preços das commodities cairiam, o que não é bom para o Brasil. "Até agora, a inflação está sendo controlada pelas importações. E a balança comercial está sendo 'segurada' pelo alto preço das commodities".
Caso o valor dos produtos exportados pelo País caia, pode haver déficit na balança comercial, o que traria pressão ao câmbio e à inflação, diz Jancso. "O BC vai tentar gerar uma aterrissagem suave da economia. Para evitar pressões futuras, a demanda tem que subir apenas 4% ao ano".
Para Luis Otávio de Souza Leal, economista-chefe do ABC Brasil, o País está em uma situação melhor que a dos demais emergentes porque tem uma economia relativamente fechada. "Enquanto aqui as exportações representam apenas 15% do PIB, em outros emergentes chega a 60%. Isso torna o País menos dependente do comércio internacional". As altas taxas de juros também contribuem para trazer capital ao País, lembra. Apesar do otimismo, Leal comenta que tudo dependerá da profundidade do estresse. "Se economia americana tiver uma desaceleração leve ao longo do ano, haverá apenas uma correção nos ativos".
No entanto, se houver recessão profunda, o preço dos produtos exportados pelo Brasil tende a desabar. "Isso levaria o câmbio para R$ 2, faria com que BC subisse os juros e a tendência de crescimento do País seria abortada". Para ele, o cenário mais provável é o menos catastrófico. "No curto prazo, acredito que a China será suficiente para manter os preços das commodities em alta", diz.
O Brasil dá sinais de que o susto com a crise externa de janeiro está ficando para trás. Após registrar no início do ano fluxo cambial negativo, ver os estrangeiros fugirem da bolsa e o cancelamento de emissões tanto no mercado interno quanto externo, fevereiro foi o mês da redenção, que continua no início de março.
Ontem, o BMG, o maior em crédito consignado do País, comunicou uma captação externa no valor de US$ 100 milhões, com início hoje e vencimento de dois anos, em março de 2010. A Usiminas, também ontem, finalizou uma captação de R$ 500 milhões em debêntures, com possibilidade de captar mais R$ 1,5 bilhão nos próximos meses.
Também no setor siderúrgico, a Gerdau anunciou nesta semana uma oferta de ações que totalizará R$ 4 bilhões.
O mercado também recebeu a notícia de que a filial da belga Solvay (Indupa), da Argentina, entrou com pedido de registro junto à CVM para realizar uma oferta pública de Brazilian Depositary Receipts (BDRs), na Bovespa.
Na outra ponta, o investidor externo aparenta ter retomado a confiança no País. Prova disso é que as compras de ações por estrangeiros na Bolsa superaram as vendas em R$ 865,398 milhões no mês passado. O fluxo cambial, negativo em US$ 2,357 bilhões em janeiro, teve saldo de US$ 3,246 bilhões em fevereiro.
Para completar o cenário animador, os dois primeiros meses do ano tiveram recorde em fusões e aquisições, com 102 operações, segundo levantamento da PriceWaterhouseCoopers.
A tese do pouso suave ou do descolamento dos emergentes já é adotada pelos bancos. Para o economista-chefe da Bradesco Corretora, Dalton Gardiman, "quem não cola, não descola. Pode ter sido ruim não termos crescido tanto no passado, mas é positivo agora", avalia.
Já Constantin Jancso, da corretora do Santander, diz que a expansão da economia chinesa deve continuar. "Se a demanda chinesa continuar, a balança comercial brasileira não será afetada."