Os últimos meses foram intensos. O ambiente político, cheio de altos e baixos, trouxe o risco de que, novamente, as pautas econômicas fossem para dentro de uma gaveta qualquer, acabando com a possibilidade de estancar nos próximos meses a recessão que já nos atinge há tempos. Entretanto, os mercados, em especial o externo, tem dado sinais de que, aquém de todos os revezes, os ajustes econômicos seguem seu caminho natural: o ajuste fiscal vai acontecer, e sair da recessão é questão de tempo. O problema a responder agora é o tempo para isso acontecer.



Depois das últimas delações, ficou nítido não só que os mercados apostam na eficácia dos ajustes econômicos como também, de alguma forma, já internalizaram sua ocorrência nos próximos períodos, ainda que com reconhecida cautela. A ainda tímida recuperação de alguns indicadores econômicos aponta para isso: PIB com leve alta de 1% no primeiro trimestre de 2017 frente ao último de 2016, perspectivas positivas para o agronegócio em 2017, aumento das vendas no varejo de 1% em abril frente a março último. Sinais de que talvez tenhamos parado de "andar para trás".



O otimismo que o mercado começa a ganhar, no entanto, vem cercado de cuidados no ambiente interno. Apesar das perspectivas de melhora, a recuperação econômica ainda inspira atenção. O desemprego foi um dos últimos fatores a indicar a recessão e, como sempre, será um dos últimos a reagir, justamente porque o mercado vislumbra melhores cenários num futuro próximo, mas sabe que só boas intenções não os garantem. A demanda precisa voltar a crescer e viabilizar o ambiente macroeconômico favorável, com maior poder de compra é primordial.



E não há como negar a importância do mercado externo neste nosso breve fôlego. Fato é que, apesar dos escândalos políticos não terem causado grandes mudanças às possibilidades de efetivação das reformas, os preços dos ativos brasileiros caíram, o que impulsionou a venda de papéis brasileiros lá fora, apesar da redução de sua demanda interna. Além disso, o dólar subiu, permanecendo em patamares confortáveis aos nossos objetivos comerciais e tornando nossos ativos mais atrativos. As incertezas aumentaram nas últimas semanas, não há dúvidas, mas não de forma suficiente para fazer com que investidores fugissem daqui.



O Brasil, aos olhos externos, apresenta perspectivas sólidas de melhora e está barato. E os sinais de recuperação, ainda incipientes, talvez sejam muito mais nítidos para quem nos olha de fora. A inflação em queda, resultado do alto desemprego e da redução da demanda por conta da recessão, viabilizou a redução da taxa de juros, que permanece em trajetória de queda e fechará o ano bem abaixo dos 10,25% atuais. Beneficiam-se deste cenário o setor produtivo, com investimentos que agora passam a ser viabilizados, expandindo a oferta. Os consumidores também deverão se favorecer, com menores custos financeiros e aumento da renda disponível para consumo. As perspectivas de crescimento são factíveis.



Nossas incertezas atuais estão, certamente, no prazo de aprovação das reformas, essenciais para que este cenário se desenhe de fato em breve, mas não recaem na sua ocorrência em si. Os ajustes fiscais são questão de tempo, que pode ser afetado pela pauta política, e este é nosso maior obstáculo no momento atual. Mas, pelo visto, o resto do mundo confia muito mais na nossa capacidade de recuperação do que nós mesmos.



 



Juliana Inhasz é professora de economia da FECAP



juliana.inhasz@fecap.br