BEIJING - Como aprofundar a cooperação econômica, política e cultural entre América Latina e China no momento em que o jogo de forças no mundo passa por mudanças estruturais? Durante dois dias, cerca de 100 jovens acadêmicos e políticos reuniram-se em Beijing para discutir respostas a esta questão. De ambas as partes, algumas constatações: a necessidade de maior conhecimento mútuo, de aprimorar os mecanismos institucionais já existentes e de apostar na diplomacia entre as pessoas.



O evento, organizado pela All-China Youth Federation, englobou nos dias 13 e 14 de julho a segunda edição do Diálogo de Jovens Acadêmicos e a quarta edição do Fórum de Jovens Lideranças Políticas. É mais um dos vários esforços de aproximação do país com a região, acentuados no governo de Xi Jinping.



Em 2015, o primeiro fórum China-Celac reuniu chefes de Estado em Beijing e firmou propostas como a de trazer mil jovens lideranças latino-americanas para visitas ao longo dos dez anos seguintes. Em 2016, o país lançou seu segundo pacote de políticas para a América Latina. O próprio Xi já fez três visitas à região, lembrou na abertura do evento da semana passada Zhou Zhiwei, diretor executivo do Centro de Estudos Brasileiros do Instituto de Estudos Latino-Americanos, da Academia Chinesa de Ciências Sociais.



Zhou disse que, quando o instituto iniciou suas pesquisas, há mais de dez anos, prevalecia na região uma imagem da China como uma possível ameaça. Para ele, essa percepção mudou com a reorientação da diplomacia chinesa e o desejo da América Latina de buscar desenvolvimento econômico.



A cooperação aumentou e já há mais de 100 mecanismos bilaterais e multilaterais em funcionamento, mas ainda falta uma colaboração mais efetiva, avaliou. "Temos importantes iniciativas para desenvolver relações com a América Latina, mas a região não tem o mesmo nível de resposta", disse. "Poucos países têm políticas específicas para a China", acrescentou.



Para o peruano Cesar Davila, vice-presidente da Organização de Estudantes Latino-Americanos na Universidade de Tsinghua, a dificuldade de agir como um bloco é um ponto fraco para a América Latina. "Trabalhar em conjunto e negociar de forma unificada seria muito mais benéfico", disse. Para o colombiano Javier Luque, doutorando em Relações Internacionais na East China Normal University, em Shanghai, a China ainda é vista por alguns como uma ameaça na América Latina e os países disputam entre si para atrair investimentos, o que dificulta uma eventual iniciativa em bloco.



"A China é um só país e na América Latina somos muitos, com realidades complexas e diferentes", resumiu o argentino Diego Mazzoccone, diretor-executivo do Centro Latino-Americano de Estudos Políticos e Econômicos da China (Clepec). "O contexto político é muito dinâmico na região, muda muito. Isso joga contra uma estratégia de médio e longo prazo na relação com a China. É o grande desafio que temos", acrescentou.  



Nova ordem



O contexto dos eventos promovidos pela China é o de uma economia global que desacelera enquanto o protecionismo e o populismo avançam, o que exigiria maior cooperação internacional em defesa da estabilidade e do desenvolvimento. Esse é o cenário apresentado nos discursos de autoridades chinesas em uma série de iniciativas recentes de aproximação com outros países.



Só neste ano, Beijing já reuniu quase 30 chefes de Estado e de governo em torno da iniciativa 'Um Cinturão, Uma Rota', em maio, e agora conduz uma intensa agenda de reuniões preparatórias para a cúpula dos Brics, que será realizada no início de setembro em Xiamen, na província de Fujian, costa sudeste da China.



Entre os acadêmicos que participaram das discussões na semana passada, a visão é de que o cenário global está em transformação. "Há uma mudanç a estrutural nos últimos dez anos, pós-crise de 2008, com uma recentragem da economia mundial na Ásia. O principal motor disso é a China", disse Bruno Hendler, doutorando em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).



Para ele, a China tende a construir periferias econômicas em torno de si, e dessa projeção emergem contradições para os países em desenvolvimento. Uma delas é ambiental, já que a demanda chinesa por recursos naturais pode levar a uma exploração imprópria. Outras contradições são econômicas, com a pressão na balança de pagamentos desde que a China passou a direcionar exportações para os emergentes após a crise de demanda nos países ricos em 2008.



"A imagem da grande compradora de soja e ferro do Brasil passa a ser ofuscada por uma nova China, muito mais complexa, que também inunda os mercados com computadores e outros produtos de valor agregado", disse. "Agora o pacote China é muito maior, porque envolve também investimento externo direto de empresas chinesas públicas e privadas, megaprojetos de infraestrutura, internacionalização da moeda chinesa e serviços financeiros."



Negociação



O discurso da diplomacia chinesa é de que suas iniciativas são baseadas nos princípios de cooperação 'win-win', com ganhos para todos os envolvidos. Na visão dos brasileiros que participaram dos seminários na semana passada, há possibilidade de benefícios, mas a negociação exige cuidados.



"Há que se ter muita cautela, mas acredito que existe espaço [para ganhos mútuos]", disse Hendler. "Como se trata de uma relação que inevitavelmente é assimétrica, há jogadores com interesses distintos, mas existe um meio campo em que ambos possam sair ganhando."



Para Kelly Ferreira, professora de Relações Internacionais da PUC de Campinas e doutoranda, a política externa brasileira não tem uma estratégia para lidar com o parceiro asiático. "Nosso corpo diplomático sabe muito pouco sobre China. Essa falta de preparo faz com que a gente saia perdendo, porque não é o Brasil que vende para a China, é a China que vai comprar do Brasil", disse.



A pesquisadora diz que houve ensaios como em 2010, quando o Ministério do Desenvolvimento Econômico criou um plano para, em cinco anos, triplicar as exportações de 140 produtos estratégicos para a China, entre eles celulose, café e carnes. "São produtos que os chineses compram de outros países, muitas vezes mais caro ou de pior qualidade", afirmou. Por falhas na execução, porém, o plano não deu resultado. "Os chineses provavelmente comprariam se fosse ofertado, mas o Brasil não sabe vender", disse.



Para André Mendes Pini, doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador da Capes, o Brasil está em um período muito conturbado da política interna, o que acaba se refletindo em uma política externa mais reativa e introspectiva. Isso acontece no momento em que os EUA se retiram de uma série de tabuleiros globais, tema do trabalho que o pesquisador submeteu aos organizadores do evento e pelo qual foi selecionado a participar.



Pini escreveu sobre as possibilidades da relação bilateral Brasil- China a partir do efeito Donald Trump no sistema internacional - quais as oportunidades para o país asiático ocupar esse vácuo e como o Brasil poderia se beneficiar disso. "A gente teria um momento muito oportuno, no qual a trajetória da diplomacia brasileira e os passos da última década poderiam impulsionar o Brasil a ocupar um lugar importante no cenário internacional", disse. "Para o Brasil, infelizmente, é uma oportunidade perdida devido à conjuntura política interna."



(A jornalista viajou a convite da Associação de Diplomacia Pública da China)