-

Nem o falastrão e midiático presidente norte-americano Donald Trump nem o mais poderoso líder chinês em décadas, Xi Jinping. A personalidade do ano de 2017, honraria concedida pela quase centenária revista Time, ficou com um grupo de homens e mulheres famosos e anônimos que decidiram quebrar o silêncio e denunciar o assédio sexual, alguns em casos ocorridos décadas antes. O símbolo negativo dessa época é o produtor Harvey Weinstein, que durante anos se aproveitou de seu poder e posição para fazer propostas sexuais a atrizes, modelos e funcionárias de suas empresas.

Não é a primeira vez que a revista decide escolher um grupo ou uma atitude como símbolos do ano que passou. O "lutador americano" foi capa em 1950 em homenagem aos soldados que serviam na guerra da Coreia e a revista já premiou os agentes de saúde da ONU que combateram a epidemia de ebola na África (2014), os filantropos (2005), os manifestantes (2011) e até os baby boomers (1966). O computador pessoal da IBM foi a capa de 1982.

O assédio sexual, seja entre famosos ou desconhecidos, não é um crime incomum. A atriz Ashley Judd, uma das primeiras a acusar Weinstein e figura de destaque na capa de dezembro, revelou que o comportamento do produtor era uma espécie de "segredo aberto" em Hollywood, ou seja, infelizmente aceito como parte da regra do jogo na indústria do entretenimento.

Além do produtor, já foram publicamente denunciados figuras como o âncora da Fox News Bill O'Reilly, os atores Kevin Spacey e Dustin Hoffman e o maestro James Levine, entre outros. A indiferença empresarial está representada pelo hotel Plaza, em Nova York, que não agiu ao tomar conhecimento de comportamentos inapropriados de seus hóspedes com algumas funcionárias e atendentes.

É certo que há uma mudança cultural no ar. O xaveco do assobio e dos olhares insistentes podem não ser percebidos como assédio, mas causam constrangimento às vítimas e abrem as portas para atitudes mais invasivas e violentas. O primeiro passo é denunciar.