Plano de voo Liliana Lavoratti Editora de fechamento
17/07/2017 - 05h00

Ovos, noiva e um recado a políticos

Curitibanas protestaram contra o que chamaram de "casamento ostentação" da deputada Maria Victória Barros

Diz um velho ditado popular que não dá para fazer omelete sem quebrar os ovos. O refrão foi levado ao pé da letra pelos curitibanos que na última sexta (14) à noite foram protestar no centro da cidade contra o que chamaram de "casamento ostentação" da deputada estadual pelo mesmo partido,  Maria Victória Barros, filha de   Ricardo Barros, ministro da Saúde, e da vice-governadora do Paraná e candidata ao Palácio Iguaçu nas eleições do próximo ano, Cida Borghetti. A família, ou "clã pepista", na política há três gerações, é considerada a mais poderosa na política paranaense. Isso, no entanto, não impediu que ovos, copos, cuspes e até lixo fossem arremessados contra a noiva a caminho do altar para o "sim" ao noivo.

No limite da paciência

"O povo chegou ao limite e era previsível que o protesto aconteceria", relatou à Folha de S. Paulo um estudante de Direito que participou da manifestação, lamentando a violência do lado de fora da cerimônia de casamento da deputada estadual de 25 anos de idade - ela foi eleita aos 22 anos -, realizada em uma igreja no centro histórico de Curitiba, onde foram recebidas cerca de 1,2 mil pessoas. Mais de trinta policiais foram mobilizados para garantir a segurança no local, onde convidados tiveram de esperar por algumas horas para deixar o local sem perigo de serem alvo dos ovos e objetos arremessados pelos manifestantes. Segundo relatos, o vestido da noiva foi atingido, mas a programação não foi interrompida.

Pecado de ser política

Se a "omelete" feita durante o que a Polícia Militar chamou de "manifestação agressiva" acrescenta algo à nossa já abatida democracia - afinal, "é o sonho de toda mulher, e o que foi que ela fez? Ser política?", como protestou a ex-primeira-dama do Paraná Regina Pessutti -, é uma questão para filósofos e cientistas sociais. Mas em um primeiro momento, não dá para ignorar a força do simbolismo desse acontecimento, em uma das cidades consideradas mais conservadoras do País. Além disso, Curitiba é o quartel-general da Lava Jato e onde fica a 13ª Vara Federal Criminal, sob o comando do temido juiz Sergio Moro.

Além do umbigo

Uma reflexão mais profunda sobre o que aconteceu no casamento de Maria Victoria Barros se justifica ainda por causa do momento complexo e delicado pelo qual passa o Brasil. Independentemente do protesto contra o "casamento ostentação" ter sido organizado e financiado por sindicatos e partidos de esquerda, como apontaram a noiva e seus pais, uma leitura cuidadosa poderia ajudar políticos saírem da cegueira de seus próprios umbigos que incluem lista de presentes de casamento com garrafas térmicas de prata, enquanto o desemprego deixa sem renda 14 milhões de brasileiros e hospitais públicos - sob a gestão do ministro da Saúde - vivem o caos.  

Caldo de revolta

O acirramento das divergências decorrentes da polarização no mundo da política, em curso no Brasil nos últimos anos, pode estar iniciando uma nova faceta. Agora, não mais os extremos ideológicos se digladiando entre si, mas com foco redirecionado. Afinal, deve servir para algum avanço de consciência a enxurrada de escândalos que vieram à tona desde o início da Operação Lava Jato, que colocou na vala comum da corrupção, do escárnio com os recursos públicos e o voto dos eleitores, a maioria das legendas políticas e de seus caciques. Pelo menos em nível de revelações, ainda não em punição. E parece que a paciência do povo está se esgotando.  

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