O uso de robôs no mundo digital com o objetivo de influenciar resultados eleitorais já é explorado em países como Estados Unidos e França. No Brasil, a tendência da atividade desses sistemas publicando informações – falsas e verdadeiras – deve atingir um status ainda não mensurável, porém alto segundo especialistas.

Por apresentar uma tecnologia de fácil acesso e barata, o uso de robôs tende a ser uma dor de cabeça cada vez maior para os agentes de regulação, como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Segundo um estudo da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV/DAPP), nas eleições presidenciais de 2014 mais de 10% das interações no Twitter foram influenciadas por robôs. No segundo turno do pleito, quase 20% das interações partiram da inteligência virtual, concentradas em maior parte no então candidato Aécio Neves (PSDB).

Dois anos mais tarde, durante o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, os 20% de tuítes automatizados habitaram o universo da petista, em contraponto ao “exército” de apoiadores do impedimento.

Para um dos responsáveis pela pesquisa da FGV, o sociólogo Amaro Grassi, a questão dos robôs será um problema cada vez maior se os agentes reguladores, os pesquisadores (que acabam atuando quase que como fiscais) e as pessoas não se atentarem para o fenômeno e aperfeiçoarem as formas de identificar os influenciadores.

“Não existe uma medida a ser tomada, mas um conjunto de atitudes a serem tomadas que podem mitigar esse fenômeno. Um ator importante nesse combate são as plataformas de redes sociais. Elas próprias podem adotar medidas e coibir esses mecanismos.”

Ele explica que às vezes a atuação de um robô não chega a atingir um universo de 4% do conteúdo gerado por determinados assuntos, mas influenciam uma gama de quase 25% do debate sendo afetado por essa intermediação. Geralmente, segundo a pesquisa, os grandes debates públicos do Brasil nos últimos quatro anos foram direcionados pelos extremos ideológicos e de onde saíram boa parte dos posts automáticos. Grassi usa o termo “guerrilha” para tipificar essas atuações que fogem do debate.

“Pode ser por meio de uma hashtag ou calúnia direta. A discussão vira uma coisa de guerrilha e acaba capturando o debate, que intensifica essa radicalização”, aponta Grassi.

Em expansão

Para Renato Shirakashi, general manager da Scup – empresa que trabalha na coleta de dados da internet e repassa informações para empresas com determinados objetivos –, o uso dos robôs será alto nessas eleições. Além do fato de que as empresas já usam da inteligência para entender seus públicos, o barateamento e fácil acesso à tecnologia tendem a ampliar seu uso nas redes.

“Tomamos cuidado para entender até que ponto as redes sociais podem ser usadas. Do ponto de vista da coleta de dados para entender e analisar cenários, é positivo. Colocar robôs para falar como pessoas, somos contra”, diz Shirakashi.

O uso dos serviços de leitura da rede está cada vez mais comum no debate eleitoral. O prefeito de São Paulo, João Doria, ficou famoso por contar com uma equipe de marketing que trabalhou pesado nessas leituras em tempo real, onde o impacto positivo ou negativo das ações e falas do candidato dita o ritmo da campanha.

“Recebemos vários tipos de contatos. Às vezes os políticos já montam plataformas para defender e atuar com muita antecedência ao processo eleitoral. Políticos, de certa forma já fazem esse tipo de trabalho constantemente e está acontecendo de uma forma embrionária, mas deve aumentar.”

Os serviços da Scup podem chegar a R$ 5 mil em análises de rede mais específicas, como a imagem e alcance de determinado político no município ou estado que é representante. Os valores podem subir se partirem para análises nacionais.

Influenciando disputas

O grande perigo dos robôs é conseguir influenciar a opinião de usuários que não tenham tanto critério na hora de trocar mensagens, ou de aceitar determinadas solicitações de amizade. Em alguns casos, esses “influenciadores digitais” adotam posturas de um humano e confundem o receptor.

O próprio TSE já se movimenta contra a propagação de notícias falsas e estuda formas de coibir o alcance dessas noticias. Amaro Grassi explica que, apesar da dificuldade em reconhecer esses robôs, determinados padrões acabam entregando quem é responsável pela difusão de informação falsa. A arma contra esse universo segue sendo a conscientização de usuários, além de expor e punir responsáveis por conteúdo negativo.

“Existem formas de ir cercando o problema até chegar num nível de certeza bem razoável”, pontua Grassi.