Às vésperas de embarcar para Londres, o jornalista esportivo Márcio Bernardes conversou com a reportagem do Shopping News e contou suas expectativas quanto à 30ª edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, e em especial o que podemos esperar da delegação brasileira.



"Acredito que o Brasil deva ter uma participação melhor que nos últimos jogos de Pequim", analisa Márcio Bernardes. Quatro anos atrás, na capital chinesa, o time verde e amarelo voltou para casa com 15 medalhas, sendo três de ouro, quatro de prata e oito de bronze, ficando na 23ª colocação no quadro geral.



Também colunista deste semanário, o jornalista se prepara para a cobertura de sua oitava Olimpíada. A primeira foi em 1984, em Los Angeles, e de lá para cá, a cada quatro anos está in loco em um dos maiores eventos esportivos do planeta, passando por Seul, em 88; Barcelona, 92; Atlanta, 96; Sydney, 2000; Atenas, em 2004, e por fim, Pequim, em 2008.



Apesar de prever uma melhora na colocação brasileira no quadro, Márcio Bernardes não acha que ficar ainda muito longe das primeiras posições no geral seja demérito para o País, mas sim uma realidade entre a situação brasileira em todos os aspectos, que inclui os esportes. "Não podemos cobrar que sejamos um país de primeiro mundo nos esportes se somos terceiro mundo na educação, na saúde, nos transportes, com um nível de corrupção altíssimo. Se compararmos com a nossa realidade, até que estamos muito bem na disputa esportiva", reflete.



Uma das maiores esperanças do Brasil em Londres está na seleção masculina de futebol, que luta pela inédita medalha de ouro. O jornalista crê que a equipe com Neymar, Oscar, Paulo Henrique Ganso, Leandro Damião pode enfim concretizar o sonho dourado. "A seleção é boa e pode trazer o ouro. Acredito que se não conseguir ser campeão o treinador Mano Menezes não vai resistir. Aliás, mesmo se for vencedor, mas não apresentando um futebol bonito, ele pode cair de qualquer forma", pontua o jornalista.



Locutor esportivo na rádio Transamérica, e colunista deste Shopping News, Márcio Bernardes também comentou a organização dos Jogos de Londres, que ele considera de muito "glamour", o que a cidade do Rio de Janeiro precisa para se adequar para daqui a quatro anos realizar uma boa Olimpíada, e de como faz a cobertura jornalística dos Jogos, tendo uma experiência bastante grande na bagagem. Confira abaixo o bate-papo realizado recentemente, na sede do jornal DCI.



Quais são suas expectativas para estes Jogos Olímpicos, que terão início no dia 24 de julho?



Londres é uma cidade fascinante e estas Olimpíadas acontecerão entre julho e agosto, no período de verão. O evento contará com os turistas que já costumam ir para a cidade nesta época, e que se somarão aos visitantes que vão para verem os Jogos, ou seja, haverá muita gente por lá. Acho difícil superar o que vimos em Pequim no que se refere à beleza das construções, como foi o Ninho do Pássaro e o Cubo D'água. Porém, há o outro lado, de você estar na cidade londrina e ao seu lado o Big Ban, o Hyde Park, entre outros pontos turísticos. Acredito que estas Olimpíadas, em comparação com as demais, serão mais glamourosas. Pra se ter uma ideia, o show de encerramento vai ser do Paul McCartney.



Com o continente em situação de crise financeira, as Olimpíadas poderão ter surpresas em virtude da atual situação econômica?



A Inglaterra está meio alheia a esta crise, não foi muito atingida, como a Espanha, a Itália e Portugal, por exemplo. O que eu soube é que no meio dos Jogos pode haver uma paralisação do transporte público. Neste aspecto foi a única coisa que sei que poderá acontecer, no mais, não há nada que possa atrapalhar, ao menos que tenha sido anunciado.



Em termos de disputa, qual a perspectiva que você tem?



A China vem muito bem; em Pequim eu fui conhecer um dos Centros de Treinamentos de ginastas olímpicos. A estrutura que os atletas têm é impressionante, não têm do que reclamar. E também, como de costume, Estados Unidos vai vir forte, além da Austrália.



E o que podemos esperar do time de atletas que representarão o Brasil nos Jogos?



O Brasil melhorou muito, mas é uma melhora lenta. É capaz de ganharmos algumas posições no quadro geral de medalhas, e somar mais conquistas do que em Pequim. Algumas ações do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), como a Lei Agnelo/Piva, favorecem este cenário, e temos melhores centros de formações de atletas também.



Hoje, o Brasil está no centro do mundo, falam muito do nosso país, da nossa economia. Isto pode se refletir nos Jogos, ou seja, você acha que este avanço pode ter algum reflexo, inclusive de cobrança, nos Jogos?



Acredito que não. Talvez, um pouco a mais por conta de que a próxima Olimpíada será no Rio de Janeiro. Cá para nós, o Brasil começou a se projetar nos esportes há poucos anos, ainda é cedo para que o reflexo econômico fomente uma disputa Olímpica.



Nós brasileiros sempre fomos reticentes em criticar nossos atletas nas Olimpíadas, pois os investimentos nos esportes amadores sempre foram muito aquém, mas este quadro tem se revertido. Muitas empresas, e o setor público também, investem muito mais do que outrora. Será que a pressão em cima dos atletas começa a ser grande a partir destes Jogos?



Não podemos exigir que o Brasil seja o primeiro do mundo no esporte se somos um país de terceiro mundo na vida. Temos uma das piores educação do mundo, a saúde é uma vergonha, o transporte público também, a assistência social é ruim, o nível de corrupção é altíssimo. Temos que cobrar das autoridades, do COB, cada vez mais, porém acho que em relação a nossa realidade e nossa participação nos esportes, estamos em um nível bom.



E em relação à participação brasileira em Londres. O que podemos esperar de medalhas?



Na natação, o Cielo deve trazer duas medalhas, uma nos 50 metros livres, sua especialidade, e onde ele está com o melhor tempo do mundo. Judô pode trazer também uma dourada, o boxe costuma trazer. No atletismo tem a Maurren Maggi que é favorita no salto triplo. Deve vir também uma prata com a Fabiana Murer, o ouro deve de novo ficar com a russa Yelena Isinbayeva. O vôlei masculino de praia é favorito também. No que se refere ao vôlei de quadra, tanto o masculino quanto o feminino, não vejo as duas seleções tão fortes como nas últimas Olimpíadas, a ponto de trazerem a medalha de ouro. Estou muito confiante, e vou torcer muito pelo vôlei, mas acho difícil. Na vela também costumamos ter bons resultados, e pode vir uma medalha de ouro. O basquete masculino não creio que trará nenhuma medalha. Têm seleções melhores, como Estados Unidos, Argentina, Austrália, Nova Zelândia, Espanha e Itália.



O futebol masculino, em particular, tem chamado muita atenção pela quantidade de bons jogadores, entre eles Neymar, Ganso, Leandro Damião, Oscar, Pato, entre outros. Alguns, inclusive, já falaram que este é o melhor time do Brasil em Olimpíadas. Você concorda com esta análise? O que esperar desta seleção? Será que desta vez o inédito ouro olímpico vem para o futebol brasileiro?



Não sei se é o melhor, a de Sydney era boa também. Já teve melhores do que este. Mas, acredito sim que pode trazer o ouro, a seleção é boa.



Em caso de não conseguir a medalha de ouro, você acha que o treinador Mano Menezes corre riscos de ser demitido?



Acredito que ele não resiste até mesmo se conseguir o ouro. Ele pode ser demitido.



Como assim? Qual argumento para demitir o treinador campeão olímpico?



Caso ele ganhe, mas o time não jogue bem. O argumento seria este, venceu, mas o time joga mal. Neste caso acho que ele pode cair. Se analisarmos, hoje o Brasil é a quinta força para a Copa do Mundo de 2014. Acho que tem apenas uma condição para ele se manter no cargo: ganhar e jogar bonito. Se for à base do sufoco, não sei não.



Mas nós brasileiros já não estamos acostumados a ver mais um futebol de resultado, do que um futebol bonito, vide o Corinthians, que no ano passado venceu o Campeonato Brasileiro justamente desta forma?



Nosso futebol está horroroso, o nível técnico dos times está muito ruim. Têm três ou quatro equipes mais ou menos, e poucos craques. Porém, não vejo que nos desacostumamos a ver o futebol bonito, está todo mundo encantando com o futebol do Barcelona, que tinha um técnico - Pepe Guardiola -, que dizia se inspirar no nosso futebol de antigamente. E todos adoram ver o Barça jogar.



A próxima Olimpíada, em 2016, será realizada no Rio de Janeiro. O que a cidade pode aprender, em termos de estrutura e organização, com Londres?



O organizador dos Jogos de Londres veio recentemente ao Rio de Janeiro, e prometeu ajudar, com a estrutura de material que pode ser reaproveitada, e com a experiência também. Acredito que o problema será a rede hoteleira. Nem com a Copa do Mundo de 2014 este problema será resolvido. Não há nenhum hotel novo sendo construído na cidade. O que poderá ser feito é utilizar navios na costa carioca para acomodar os turistas. Porém, a Europa estará em alta temporada, não sei se haveria navios para tal utilização.



E quais são os desafios cariocas para 2016, tendo em vista que alguns problemas podem ser solucionados com a Copa de 2014?



A Copa do Mundo vai ser um parâmetro para as Olimpíadas. Se o Brasil, como um todo, e o Rio de Janeiro, em particular, fracassar estruturalmente na Copa, pode-se ter tempo de melhorias até 2016, ainda mais porque o projeto olímpico é muito maior do que o do Mundial, tendo em vista que é uma questão de reurbanização quase que total da cidade.



Esta será a oitava vez que você estará nas Olimpíadas. Como faz a cobertura, quais são suas prioridades, e como você se programa?



Na véspera dos Jogos Olímpicos recebemos a programação completa de tudo o que vai rolar de disputa. Normalmente as competições começam às 10h. Daí tem o deslocamento, a disputa, as entrevistas, escrever, gravar. Depois, faço a segunda cobertura, que normalmente é no final da tarde, o no mesmo esquema. Quando consigo tempo ainda faço mais uma no período da noite. Minha vida olímpica é assim. Costumo dar preferência para o basquete, para o futebol e vôlei. Natação e atletismo faço apenas as fases finais, já que nos períodos matutinos acontecem às qualificações, e isso não é muito nosso foco.