São Paulo - Passado o momento da decolagem das empresas, inclusive pequenas e médias, rumo à computação em nuvem, o cenário atual é o de uma corrida em direção às etapas da transformação digital.

O Brasil é, sem dúvida, uma das economias mais afetadas por esse fenômeno, também chamado de terceira plataforma. Sintoma claro está na pesquisa da Progress - empresa global focada em tecnologias para o desenvolvimento de aplicações de negócios - com 51 companhias brasileiras. Nada menos que 86% dos líderes empresariais locais acreditam ter dois anos para se adaptar à transformação digital, sob pena de perderem dinheiro ou chances de negócios.

Não é por menos. O Brasil tem a seu favor a enorme base instalada de dispositivos com banda larga e um público altamente antenado nos movimentos de digitalização. Também é reconhecida mundialmente a excelência e modernidade da automação bancária brasileira. O Brasil foi o primeiro país do mundo a realizar eleições 100% por meio da aplicação digital.

"Do ponto de vista prático, a rápida assimilação brasileira da transformação digital pode ser dada pela grande adesão do consumidor pelas empresas disruptivas, nas quais há uma mudança brusca e estrutural no modo de se encarar uma determinada indústria, como as globais Uber, Trivago e Netflix, além das de brasileiras como a 99Taxi e IngressoRápido" , diz o vice-presidente da Progress para o Brasil, América Latina e Caribe, Matthew Gharegozlou. Aqui também são numerosas as companhias tradicionais que adotam a transformação digital de modo não disruptivo, mas simplesmente evolutivo. "A maioria dos bancos já aceita a abertura de contas por celular, a partir de documentos, fotos e assinatura do cliente capturados pela câmera do aparelho e enviados para um data center", exemplifica Gharegozlou.

Para todos os portes

Quando a computação em nuvem começou a se difundir mais fortemente, em meados dos anos 2000, havia uma crença no mercado de que a adoção desta tecnologia iria começar pelas empresas maiores e que levaria um bom tempo para as pequenas aderirem. "Mas não foi exatamente o que ocorreu. A migração começou com as grandes, mas as pequenas e médias logo enxergaram nesse modelo uma forma prática e econômica de gerir suas necessidades de TI sem ter de, a cada ano, trocar seus servidores, e sem se preocupar com a constante manutenção e instalação de novas aplicações de software", enfatiza o vice-presidente da Progress.

Assim, em prazo curto, a computação em nuvem deixou de ser uma opção 'diferente' para ganhar preferência das pequenas empresas. Hoje, oferecer estruturas virtuais para pequenos negócios se tornou prioridade da maioria dos grandes provedores de serviços instalados no País, diz o executivo. "É consenso na comunidade de TI que o Brasil está surfando no topo da onda da transformação digital e que isto abre uma enorme janela de oportunidade para desenvolvedores de aplicações de negócios para varejo, entretenimento, saúde e, logo mais à frente, internet das coisas", acrescenta Gharegozlou.

Impulsão de mercado

A Oracle compartilha dessa visão. Recentemente, lançou o ERP Cloud, solução para impulsionar a transição à economia digital. "É uma ferramenta de gestão dedicada especificamente ao mundo corporativo brasileiro, integrada às redes sociais e demais inovações, encorajando a colaboração interna e externa por meio da conexão entre usuários em diferentes meios sociais. É acessível inclusive às pequenas e médias", explica o vice-presidente sênior de aplicativos cloud, Oracle para a América Latina, Adriano Chemin.

Ele destaca ainda a vantagem de atualização constante dos softwares quando comparada com a tecnologia tradicional. "Está havendo uma revolução dentro da TI. Estamos reescrevendo todos os nossos produtos." Ainda segundo ele, a transformação digital será mais rápida nos segmentos da economia com maior interação com os consumidores - bancos, varejo, telecomunicações, seguros, saúde -, e mais lenta na indústria.

As dificuldades e facilidades de avanço da transformação digital no Brasil são bastante semelhantes ao resto do mundo, segundo pesquisa da consultoria global IDC.

"No Brasil, 73% das empresas afirmam que esta finalidade é engajar o cliente, enquanto 49% esperam que a tecnologia ajude a alavancar a marca", comenta o executivo da Progress.

Estimado mundialmente na casa de US$ 2,1 trilhões até 2019, o mercado de softwares e serviços relacionados à transformação digital no Brasil - desde a produção de aplicações, criação de sistemas de web, consultoria, oferta de serviços em nuvem até integração de sistemas robóticos - é calculado pela Associação Brasileira das Empresas de TI (Brasscom) em cerca de 10% do volume de negócios em TI, de US$ 123 bilhões ao ano.

Potencial das menores

Nesse universo, há espaço também para as empresas nacionais. É o caso da S2IT, de médio porte e especializada em software personalizado e serviços gerenciados de TI, com atuação na capital paulista e interior. A empresa investiu R$ 2,5 milhões em nova unidade em Araraquara (SP), próxima aos polos formadores de profissionais de TI, para atender alta demanda. "Focamos na transformação digital com ênfase na sustentabilidade da infraestrutura de TI nos negócios, considerando cada vez mais a tendência de uso de dispositivos móveis", explica o sócio e diretor comercial da S2IT, Afonso Saade.

A também média 2S Inovações Tecnológicas busca um lugar ao sol nesse mercado. "As empresas querem segurança para sair do negócio tradicional e ir para o digital. Nosso esforço visa evitar vulnerabilidades nessa ação", diz Mirella Damaso Vieira, responsável por projetos IoT na 2S.

Segundo ela, é nítido o interesse das empresas na busca de soluções para a nova economia. "Estamos investindo nas oportunidades que se abrem e vão se ampliar em 2017, quando a economia melhorar. Grandes mineradoras, hospitais, indústrias alimentícias, indústria, logística, varejo, a tendência é todos os setores se movimentarem neste sentido", finaliza Mirella, da 2S.