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São Paulo - Com a retração da economia brasileira nos últimos dois anos, cresceu a busca de empresas pela expansão para o exterior, principalmente para os Estados Unidos. A entrada no mercado norte-americano, no entanto - que esbarra em questões como a legislação local e a concorrência -, pode se tornar ainda mais difícil com as incertezas impostas pelo novo governo Trump.



"Até agora não foi anunciado nada que dificulte, mas pelo discurso e pelas políticas citadas é possível que haja a imposição de medidas que limitem a entrada de estrangeiras", diz a professora da Fundação Dom Cabral (FDC) e responsável pelo estudo Ranking das Multinacionais Brasileiras, Livia Barakat.



Ela cita fatores como a imposição de uma taxação maior e de uma regulação mais firme. "Na China, por exemplo, tem setores específicos que para uma empresa estrangeira entrar é preciso ter um parceiro chinês com pelo menos 50% de participação no capital. Nos EUA isso não existe, mas é algo que pode vir a acontecer."



O diretor de inteligência de mercado da Associação Brasileira de Franchising (ABF), Claudio Tieghi, também mostra preocupação a respeito do novo cenário. "Existe, sim, um clima de incerteza. Entrar no mercado americano é difícil com ou sem Trump. A mudança do governo gera essa dúvida se pode dificultar ainda mais", afirma.



A entidade contabiliza hoje 134 redes de franquias com operação no exterior, sendo que o principal mercado é o dos EUA, com quase 30% do total.



Nesse universo, a rede iGUi, que comercializa e fabrica piscinas, é a que tem a presença no maior número de países (40). Com duas unidades nos EUA e mais duas em processo de implementação, o diretor internacional da rede, Marcelo Pazos, diz que a mudança do governo dos EUA pode ser um empecilho para a expansão no país.



"As duas lojas que temos operando são com franqueados brasileiros, e as duas em implantação os interessados são mexicanos. Essas barreiras para a imigração sem dúvida vão prejudicar a nossa expansão."



De acordo com ele, o plano da empresa é chegar a dez unidades no país, e abrir também um pátio fabril. "Queremos atingir um faturamento para poder abrir uma fábrica no país, o que ajudaria muito no desenvolvimento da rede", diz o executivo. Segundo ele, esse é outro aspecto que pode ser impactado pela entrada do presidente Donald Trump. "Com o novo governo é possível que fique até mais difícil de conseguirmos abrir uma fábrica lá: a burocracia pode subir ou até haver uma proibição."



Para o vice-presidente da Stefanini, multinacional com presença em 39 países, Ailtom Nascimento, a mudança no governo não deve impactar diretamente a empresa. "Não acho que o efeito Trump vá afetar nossa operação nos EUA, por ser uma empresa de origem brasileira. Mas a economia norte-americana pode sim ter uma reação negativa por conta do novo governo. Se isso acontecer vai nos afetar, porque ela está muito fundamentada no mercado local", diz.



De acordo com ele, dos 39 países em que a empresa opera os EUA é o de maior relevância em termos de faturamento, atrás apenas do Brasil. As operações no exterior representam atualmente 50% de todo o faturamento do grupo (sem considerar a variação cambial), e a expectativa para este ano é de que a empresa entre em mais dois países.



"Temos uma prospecção em curso e estamos avaliando também uma nova aquisição, no Leste Europeu e Europa Central. O processo ainda não está muito avançado. Eu diria que a negociação está no meio do caminho", diz, sem querer citar o nome da empresa, nem o valor da oferta.



 



Estímulo da crise



Nos últimos dois anos, explica Lívia, da FDC, o número de empresas brasileiras buscando a internacionalização ou acelerando o processo de expansão no exterior aumentou consideravelmente. De acordo com ela, isso se deve a retração do mercado doméstico. "O cenário interno impõe duas situações: maiores riscos de operação e um resultado financeiro mais fraco. Isso faz com que as empresas busquem compensar a queda com a exploração do mercado externo", afirma.



Exemplo desse movimento, as redes de franquia Moldura Minuto e Embelleze iniciaram recentemente o processo de internacionalização. "Com a crise optamos por essa estratégia para buscar novas receitas. Era algo que já estávamos estudando, mas com a recessão decidimos colocar em prática", diz o diretor comercial da Moldura Minuto, Antonio Carlos Viégas Filho.



A rede inaugurou em 2014 uma unidade no Paraguai, no ano passado uma no Uruguai e outra na Bolívia, e planeja abrir mais uma loja no Peru no próximo mês. "O nosso plano é terminar a expansão na América do Sul este ano, e em 2018 queremos entrar nos EUA. Já registramos a marca e estamos trabalhando nas questões legais junto com a Apex", afirma.



O instituto Embelleze, por sua vez, abrirá sua primeira unidade fora do Brasil em fevereiro, no Equador, e também planeja ingressar no mercado norte-americano. "O maior desafio foi encontrar o parceiro ideal e que tivesse um 'trânsito' nos países", afirma o presidente-executivo da empresa, Paulo Tanoue, que projeta para este ano (com a primeira loja), faturamento de U$ 360 mil proveniente da operação no Equador. Para 2022, a estimativa é faturar U$ 7 milhões vindo do exterior.



A iGUi, por sua vez, tem planos de acelerar mais a expansão no exterior nos próximos anos e quer entrar em mais dez mercados. "Estamos há dez anos no processo de internacionalização, mas queremos acelerar. Até 2020 queremos estar na maioria dos países", diz Pazos. A rede tem hoje cerca de 190 lojas no exterior, com uma fatia próxima de 20% do faturamento da rede.



A despeito das dificuldades que as políticas protecionistas dos EUA e de outros países, Livia, da FDC, aponta que a tendência é de que a internacionalização continue avançando. "É um processo irreversível, as companhias brasileiras devem continuar entrando em novos mercados e iniciando a internacionalização", finaliza.