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Por Anthony Boadle

BRASILIA (Reuters) - Supostas mensagens pessoais vazadas publicadas na sexta-feira à noite pelo site Intercept Brasil mostram que o então juiz Sergio Moro teria orientado promotores a influenciar a opinião pública no processo que levou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à prisão.

    O Intercept Brasil postou o que teriam sido as conversas entre Moro, hoje ministro da Justiça e Segurança Pública, e promotores, sugerindo que eles fizessem uma declaração pública explicando contradições no depoimento de Lula para minar sua reivindicação de ser vítima de perseguição política.

    O diálogo teria ocorrido após o depoimento de 10 de maio de 2017 de Lula contra acusações de que ele recebeu um apartamento no Guarujá (SP) como propina. Lula deixou o tribunal dizendo a apoiadores que estava sendo "massacrado" e que se preparava para concorrer à Presidência novamente.

    Moro questionou neste sábado a autenticidade das mensagens e disse que não comentaria textos obtidos por hackers.

    "Reitera-se a necessidade de que o suposto material, obtido de maneira criminosa, seja apresentado a autoridade independente para que sua integridade seja certificada", disse ele em comunicado.

    Os textos copiados do aplicativo Telegram parecem mostrar Moro sugerindo aos promotores que montassem uma campanha pública contra Lula, e o Intercept Brasil afirma que o diálogo levanta dúvidas sobre a imparcialidade de Moro no julgamento que levou a uma sentença de 12 anos de prisão para Lula.

    "Talvez vcs (sic) devessem amanhã editar uma nota esclarecendo as contradições do depoimento com o resto das provas ou com o depoimento anterior dele", escreveu Moro ao promotor Carlos dos Santos Lima sobre a investigação, segundo a transcrição mostrada pelo Intercept Brasil.

    Advogados de Lula há muito argumentam que Moro é um juiz com motivação política, que queria prender seu cliente para impedi-lo de concorrer à presidência em 2018, quando pesquisas o mostravam liderando a disputa, mesmo após ele ter sido preso.

    Em entrevista publicada na sexta-feira, Moro disse ao jornal Estado de S.Paulo que não teme que a condenação à corrupção contra Lula seja anulada, o que especialistas jurídicos, incluindo a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), disseram que poderia acontecer.

    O Intercept Brasil publicou reportagens baseadas no que disse ser um "enorme tesouro" de supostas mensagens recebidas de fonte anônima contendo trocas entre promotores, Moro e outros envolvidos na investigação e julgamento da operação Lava Jato.

    Considerada a maior investigação de corrupção do mundo, ela revelou bilhões de dólares em propinas pagas em esquemas envolvendo principalmente contratos com estatais. Ela derrubou políticos e empresários no Brasil e na América Latina.

    Moro disse ao jornal entender que não havia nada ilegal em suas conversas com os promotores e insistiu que o caso de Lula "foi um caso decidido com absoluta imparcialidade com base nas provas, sem qualquer espécie de direcionamento".

    Moro foi nomeado ministro pelo presidente Jair Bolsonaro, que ganhou a Presidência depois que Lula ter sido impedido de concorrer por causa de sua condenação.

 

(Reportagem de Anthony Boadle)