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O custo de escoamento da produção brasileira de grãos chega a ser três vezes superior ao praticado nos principais países concorrentes, o que reduz a competitividade do produto nacional. E as consequências do tabelamento do frete poderão ampliar ainda mais essa diferença.

Em 2017, por exemplo, o custo com transporte de soja no Brasil foi de US$ 83 por tonelada, enquanto na Argentina girou em torno de US$ 40 e, nos Estados Unidos, US$ 23. “As perdas são ainda mais expressivas no milho, já que o cereal tem menor valor do que a soja no mercado internacional”, avaliou o consultor de logística da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Luiz Antônio Fayet, ontem, em evento realizado em São Paulo para debater os impactos para o setor do tabelamento do frete após a greve dos caminhoneiros.

Segundo ele, o Brasil deixa de produzir de 3 milhões a 5 milhões de toneladas de grãos por ano devido ao elevado custo de transporte da produção. “Com essa nova tabela, não sabemos o quanto esse custo pode aumentar”, afirmou.

Para Fayet, porém, ainda mais grave do que o aumento de custos causado pela determinação da tabela de preços mínimos de transporte rodoviário é a desestruturação de cadeias produtivas.

“O que chega ao consumidor é planejado com anos de antecedência”, disse, ressaltando que os produtores de frango e suínos devem ser os mais prejudicados.

O presidente do comitê de logística da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Claudio Graeff, estima que a definição sobre a constitucionalidade do tabelamento do frete deve ficar para depois das eleições. “A tabela é uma solução simples para um problema complexo, já que o Brasil é refém do modal rodoviário.”

Para o diretor de vendas da Scania Brasil, Silvio Munhoz, o modal preferencial para o transporte de grãos precisa mudar. “No mundo inteiro, nós vendemos caminhões para outros produtos de maior valor agregado”, relata.

Na opinião de Fayet, a definição da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) sobre o pagamento de multas para quem não contratar transportes conforme a tabela é “inaceitável”. O diretor da cadeia de suprimentos de grãos da Cargill, Ricardo Nascimbeni, argumenta que, em muitos casos, a multa seria superior ao valor pago pelo próprio transporte da carga.

Conforme o executivo, o tabelamento do frete travou as negociações de soja, que somam 15% hoje e deveriam estar “muito acima do patamar atual”. “Estamos perdendo a oportunidade de capturar ganhos com a guerra comercial entre a China e Estados Unidos”, destacou.

Frota própria

Diante dessa perspectiva, muitas empresas do agronegócio vêm cotando preços para montar uma frota própria para transporte. “Respeitada a atual tabela, investir em frota própria teria um retorno econômico positivo”, acrescentou Nascimbeni. A companhia movimentou 200 mil caminhões desde maio até setembro. “Porém, estamos em um ambiente completamente desequilibrado entre oferta e procura, em que há mais caminhões do que o necessário para escoar a safra. Nossa esperança é que isso não seja necessário. Mas se for, nós o faremos.”

O diretor de logística da Yara Fertilizantes, André Perez, afirma que a empresa avalia a possibilidade de investir em uma frota própria, mas descarta a alternativa neste momento. “Nós somos uma empresa de fertilizantes que usa transporte, por isso queremos que ele seja baseado em uma livre concorrência”, assinala.

A companhia deixou de vender em torno de 300 mil toneladas em maio por conta da greve, quando normalmente negociaria 700 mil toneladas. “Tivemos uma perda de 15 dias de entrega por conta da greve e não temos como recuperar.” A empresa movimenta 500 mil caminhões por ano.