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A incerteza em relação aos preços dos fretes deve fazer com que as exportações de milho brasileiro alcancem 20 milhões de toneladas em 2018, 35% abaixo da projeção inicial de 30,8 milhões de toneladas, estimou ontem a Datagro.

“Se não fosse a imprevisibilidade seria possível chegar ao volume inicialmente previsto, mas no caso do milho a tabela compromete muito o escoamento, já que os preços do grão são menores”, explica o diretor geral da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), Sérgio Teixeira Mendes.

Para o chefe do departamento de grãos da Datagro, Flávio Roberto de França Júnior, se a projeção se concretizar, o País vai virar o ano com estoques altos, abalando a perspectiva de preços elevados para o cereal e o consequente estímulo ao cultivo.

Para a safra 2018/2019, a consultoria estima a produção total de 92 milhões de toneladas – sendo 28 milhões na safra de verão e 64,2 milhões na segunda safra. A alta é de 12% ante as 82,3 milhões de toneladas previstas para a safra atual, em que a safrinha ainda está sendo colhida.

A área cultivada deve crescer 4% no próximo ciclo, para 17,5 milhões de hectares, sendo 5,4 milhões de hectares no verão e 12,1 milhões de hectares na segunda safra. No acumulado do primeiro semestre os embarques somaram 3 milhões de toneladas, segundo dados da Anec. Vale ressaltar que as exportações ocorrem em maior volume no segundo semestre do ano.

Segundo a INTL FCStone, os dados portuários apontam para o embarque de 2,1 milhões de toneladas em julho, ante 1,6 milhão de toneladas no mesmo mês do ano passado, quando a segunda safra teve uma quebra mais intensa que a atual. “Entre os principais países exportadores, o Brasil possui atualmente o produto mais caro, cerca de US$ 8 por tonelada acima da cotação na Ucrânia e US$ 21 por tonelada acima dos Estados Unidos”, afirma o analista de mercado da consultoria João Macedo, em relatório divulgado nesta terça-feira. Para agosto, a previsão é de embarque de 2,5 milhões de toneladas de milho.

Os preço alto é resultado da oferta reduzida. A INTL FCStone aponta que a segunda safra do cereal teve uma quebra de 17,8%, para 53,4 milhões de toneladas em razão do clima seco. A produção total deve somar 79,2 milhões de toneladas, 19,1% menor que a de 2017.

Soja

Para a oleaginosa, a projeção da Datagro é de um avanço de 3% na área, para 36,1 milhões de hectares e uma nova produção recorde de 121 milhões de toneladas no ciclo 2018/2019.

Conforme França Junior, a projeção leva em conta os preços significativamente melhores em 2018 ante ao ano anterior, os prêmios em alta, a produtividade recorde e a demanda aquecida, especialmente da China. “A lucratividade também foi positiva, e chegou a 24% a 47% dependendo da região de produção”, afirma o analista.

Ele ainda destaca o cenário positivo de preços para a oleaginosa em 2019. “Não é empolgante, mas é razoável.”

Segundo o analista, porém, alguns fatores podem limitar a expansão de área projetada, como o aumento de custo de produção, em razão do tabelamento de fretes e a oscilação do dólar. “Esse dólar de R$ 3,70, R$ 3,80 não é a taxa de equilíbrio. Se tivermos um candidato pró-reformas à frente nas pesquisas essa taxa pode perder força e corremos o risco de plantar com a taxa de câmbio alta e vender com uma taxa baixa”, alerta o analista.

Ele acrescenta que os preços tanto da soja quanto do milho, que derreteram nos últimos dois meses na Bolsa de Chicago em função da crise comercial entre China e Estados Unidos, só voltarão aos patamares anteriores com um acordo entre os dois países.

Embora as cotações tenham perdido força, os preços pagos pela soja se mantiveram favoráveis ao produtor devido aos prêmios nos portos. “Esse é o destaque da temporada, com valores bem superiores aos do ano passado”, avalia.

No mercado interno, ele estima margens ajustadas, porém positivas para os sojicultores em 2019, com prêmios favoráveis, apesar de menores que os deste ano, com preços em Chicago próximos da média de 2018. Ele destaca que a comercialização da safra 2018/2019 chega a 17% ante aos 12% de média para o período e projeta preços remuneradores para a venda antecipada. Outro fator de incerteza é o clima. “Estamos caminhando para um período de El Niño, que normalmente indica clima positivo no Centro-Sul e mais complicado no Norte e Nordeste, mas ainda há dúvidas.”