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Diante de tantas notícias terríveis, de balas perdidas matando pessoas inocentes, de idiotas ao volante atropelando e tirando a vida de quem atravessar seu caminho, de policiais violentos usando a farda como desculpa para desmandos absurdos, das sinistras revelações das atrocidades cometidas durante a ditadura militar,  de ataques a homossexuais, eu me pergunto: como é que um homem pode ser considerado um ser humano, alguém com capacidade de raciocínio e, ao mesmo tempo, perder completamente sua humanidade e qualquer rasgo de sensibilidade?



Outra coisa que incomoda, muito, é a ignorância de gente que deveria saber o que aconteceu, por exemplo, na segunda guerra mundial, na Solução Final dos nazistas.



Adolf Eichmann esteve no comando do transporte de judeus para os campos de concentração na Polônia. Ele não participou da decisão política de extermínio, mas esteve profundamente envolvido na organização do sistema ferroviário que tornou possível a matança de seres humanos apenas porque eram judeus. Eichmann era eficiente, disciplinado, e montou um organizado sistema de trens que partiam e chegavam no horário.



Mas o resultado de seu trabalho eficiente foi a morte de milhões de pessoas - incluindo crianças, mulheres e velhos -, que seguiam nos trens, sem água, sem comida e sob frio extremo. No destino, eram queimados em massa nas câmaras de gás e os mais fortes eram postos em tortura e trabalhos forçados.



Tendo fugido para a Argentina ao fim da guerra, Eichmann foi capturado em 1960 pelo Mossad, o serviço secreto israelense, e foi levado a julgamento em Jerusalém.

Adolf Eichmann apresentou-se diante do juiz como uma pessoa normal, um homem a quem ensinaram a ser patriota, a cumprir as leis e a obedecer às ordens. Se o Estado totalitário alemão, sob Adolf Hitler, criou leis tão cruéis, não caberia a ele discutir, mas apenas cumprir sua obra de engenharia com competência. Eichmann dizia em sua defesa que nunca matou ninguém, nunca visitou um campo de concentração. Ele apenas construiu trens e um notável sistema de transporte.

Hannah Arendt, a grande filósofa judia alemã que conseguiu fugir das garras nazistas, foi a Jerusalém para ver como era um monstro de perto. No julgamento de Eichmann, ela ficou estupefata ao ver que ali estava um homem de aparência normal, medíocre, cujo trabalho burocrático ajudou a viabilizar a monstruosidade assassina de um Estado totalitário. Foi quando Hannah Arendt cunhou a expressão "a banalidade do mal";

Por estar impregnada de tanta violência, crime, medo e tragédias, a sociedade brasileira vem produzindo, em cada um de nós, uma certa redução da sensibilidade e uma quase indiferença diante da destruição de tantas vidas . Se o crime e a violência ficaram tão banais e tão rotineiros no país, por que a indignação diante da cena, no Maranhão,  de presos jogando futebol com a cabeça de alguém que no dia anterior havia almoçado com eles?



A violência social brasileira está gerando - se não em todos, mas em muitos de nós - a mesma banalidade do mal que o Estado totalitário de Hitler gerou em Adolf Eichmann. Afinal, ele era apenas um homem comum, burocrata competente, que não perdia o sono porque seu eficiente sistema ferroviário transportava mulheres, crianças e velhos para serem mortos nos campos de concentração da Polônia.



 Insisto, me incomoda muito ver que na sociedade ao redor, gente que devia ser bem informada, desconhece a História recente. "Aqueles que não podem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo", escreveu o filósofo espanhol George Santayana.