Publicado em

"A fortuna está a meu lado. Cupim patriótico!".  Edu Chaves apontou a proa do seu Blériot 80 HP em direção a Santos, de onde faria o vôo visual até o Rio costeando o mar , uma vez que não havia cartas aeronáuticas disponíveis naquela época, 1912. Viajava com seu monomotor entre 70 e 80 km/h.



Da Mooca, em São Paulo, ele partiu às 9h46 do dia 5 de julho. 450 quilômetros de distância, quatro horas e 39 minutos. Foi o primeiro voo sem escalas de São Paulo para a então capital do Brasil.



Era, também, o início do reide para Buenos Aires. Mas Edu tinha uma grande desvantagem, decolar para o Rio a fim de iniciar a travessia, enquanto seu oponente argentino, que buscava o mesmo propósito, já se encontrava em Sorocaba, pronto para voar para o Campo dos Afonsos, cumprindo a última etapa da viagem.



Ao iniciar o taxiamento do seu Blériot, avião francês cuja carenagem havia sido removida para torná-lo mais leve, Edu já estava conformado em ser o segundo a cobrir essa rota Rio-Buenos Aires. Mas neste momento chegou a notícia de que o rival portenho, ao fazer os procedimentos de decolagem, abalroou um rijo domo de cupins no pasto que lhe servia de pista. Com o choque, o avião praticamente se desmanchou, sepultando o projeto do piloto argentino ali mesmo.



"Fortuna, cupim patriótico", exclamou o brasileiro.



Registro histórico



O jornal O Diário, de 6 de julho de 1914,  registrou o primeiro vôo São Paulo-Rio de Janeiro:



"O dia de ontem  assinalou mais um triunfo para a aviação no Brasil. Coube ainda uma vez a Edu Chaves realizar um "raid" sensacional, vindo de São Paulo ao Rio de Janeiro em 6 horas e meia, vencendo com admirável segurança um percurso de 450 quilômetros. O arrojado aviador paulista, nessa prova de resistência teve de vencer dificuldades que não chegaram para impedir a terminação do seu vôo memorável, desta vez terminado com um absoluto sucesso, aterrando calmamente no campo de aviação da fazenda dos Afonsos".



"Edu Chaves saiu do prado da Mooca em S. Paulo às 9h30 da manhã, tendo resolvido de surpresa renovar o "raid" que o tornara famoso, alguns anos atrás, quando uma falsa orientação do terreno o fez cair ao mar, nas proximidades de Mangaratiba. O aparelho de que se serviu Edu Chaves foi um monoplano Bleriot, com um motor Gromo de 80 cavalos. O percurso realizado no "raid" de ontem foi de cerca de 450 kilômetros, vencidos em seis horas e meia. Edu Chaves fez o vôo na altura de 2000 metros, subindo a 3000 metros ao atravessar a Serra do Mar. A velocidade desenvolvida pelo Bleriot foi de cerca de 80 kilômetros por hora. Foi uma verdadeira surpresa a chegada de Edu Chaves no campo de aviação da fazenda dos Afonsos. Recebido com efusivas demonstrações de aclamação, por Darioli, Nicola Santo, Kirk e outros aviadores presentes, Edu Chaves foi felicitado entusiasticamente pelo "raid" que realizara com um sucesso tão brilhante.(.)"



 



Anos Dourados



Notícias de façanhas aéreas corriam o mundo. Edu Pacheco Chaves,  herdeiro de uma próspera família de cafeicultores seguiu o mesmo roteiro de tantos outros jovens ricos, indo para a França, Paris, e lá,  aprender com seus ídolos. Tornou-se amigo e companheiro de aspirações aeronáuticas de Alberto Santos- Dumont, Roland Garros e Louis Blériot, entre muitos outros.



Em 28 de julho de 1911 , aos 24 anos, Eduardo Pacheco Chaves foi o primeiro brasileiro a obter o brevê de piloto da Fédération Aéronautique Internacionale. Ainda na França, foi o primeiro aviador a realizar vôos noturnos.



A saga de um herói



O melhor amigo de Edu Chaves, em Paris, foi o francês Roland Garros. Ele mesmo, lembrado hoje por ter sido um esportista que dá nome ao complexo esportivo que abriga o tradicional Aberto da França de tênis.



Garros era um estudante de música em 1909 quando, fascinado por uma apresentação de vôo em Reims,  trocou o piano por um manche. Logo iria se tornar um herói francês. Garros bateu inúmeros recordes e viajou o mundo ensinando pilotagem.



Amigo de um, amigo de outro, Santos Dumont. Garros esteve no Brasil no início daquela década dourada. Em 1913, fez a primeira travessia do Mar Mediterrâneo. De Saint Raphael, na França, a Bizerte, na Tunísia, cerca de 800 quilômetros de vôo. No ano seguinte, registrem a ironia, estava ensinando técnicas de aviação militar na Alemanha quando estourou a Primeira Guerra. Escapou de lá num vôo noturno via Suíça e chegou à França. E ele foi o responsável por uma grande contribuição ao desenvolvimento militar do avião. Diante da dificuldade de pilotar e atirar ao mesmo tempo, acoplou uma metralhadora ao nariz de seu avião. Protegendo as hélices com chapas de metal, o piloto podia, então, atirar. Dessa forma Roland Garros abateu três aviões alemães em duas semanas. No mês seguinte, porém, Garros caiu atrás das linhas inimigas, falta de combustível. Foi capturado e, antes que pudesse destruir seu avião, sua invenção caiu nas mãos de Anton Fokker,  holandês que trabalhava para os alemães. Fokker aperfeiçoou o mecanismo de tiro.



Garros conseguiu escapar antes do fim do conflito, retomando seu posto como piloto, obtendo muitas vitórias nos "dogfights" (os pegas aéreos), antes de ser abatido e morto em outubro de 1918 em Vouziers, norte da França. Já era, então, uma lenda.



Asas para o Brasil



Em 1912, o agora piloto Edu Chaves trouxe alguns aviões para o Brasil. Até esse momento, embora por aqui já houvesse algumas apresentações de proezas aéreas, os pilotos eram sempre estrangeiros.



Em 1914, estoura na Europa a Primeira Guerra Mundial. Edu Chaves tentou se alistar como piloto no exército francês, não foi possível, surgiram dificuldades diplomáticas. Não desistiu, entrou na Legião Estrangeira, e por ela voou três anos durante a guerra.



Depois da guerra, trouxe para o Brasil 25 aviões, e na sua fazenda Guaripa, onde hoje está o Parque Edu Chaves, na zona norte de São Paulo, ele criou um campo de pouso e passou a dar aulas de pilotagem. Mas em 1930 o ditador Vargas simplesmente expropriou a frota da escola. E assim Edu Chaves abandonaria a aviação de vez.



Entrevista



O jornalista José Maria dos Santos, nosso companheiro do Diário Comércio, entrevistou Edu Chaves uns dois anos antes de sua morte, ocorrida em 21 de junho de l975. "Naquela época, conta o jornalista, ele morava em um apartamento no centro,  e já havia amputado sua perna direita na altura da coxa devido a complicações de diabetes. No entanto, conservava-se lúcido, exibindo invejável vivacidade. Sua primeira providência foi mostrar-me o macacão que havia utilizado no reide pioneiro Rio-Buenos Aires. Era uma peça inteiriça em feltro azul escuro, tom um pouco mais carregado do que o azul marinho, com faixas vermelhas, na verdade encarnadas, que corriam lateralmente das axilas aos tornozelos."



Família



Edu Chaves era filho de Elias Pacheco Chaves e de Anésia da Silva Prado, uma antiga família de ricos cafeicultores. Nasceu em um casarão da Rua de São Bento na cidade de São Paulo. O casarão ainda existe. 



Seu neto, o economista Jaime Eduardo Chaves da Silva Telles, presidente do clube Harmonia, guarda boas recordações do avô. "Era um homem tímido, mas adorava crianças e animais. Ele me visitava todos os dias, era um homem fascinado com sua condição de avô tardio. Era uma pessoa sem cerimônias, gostava de esportes populares, inclusive corridas de cães e lutas de boxe". Jaime revela que, hoje, seu avô teria uma grande identificação com a juventude, "ele tinha os braços repletos de tatuagens, feitas no cáis do Tâmisa, em Londres".



Segundo o neto, Edu Chaves não apreciava muito os militares, tinha uma visão européia, detestava o brigadeiro Eduardo Gomes. E se hoje pouca gente cultua sua memória e suas aventuras, Jaime credita isso à ditadura de Vargas, que sistematicamente ocultava a saga do nosso primeiro piloto.



Mais ainda: todas as relíquias de Edu Chaves, que há 20 anos foram doadas à Fundação Santos Dumont, hoje dormem esquecidas, provavelmente sofrendo danos irreparáveis, encaixotadas, num galpão na Granja Viana. É que o Museu de Aeronáutica, depois de muitos anos, foi despejado do Parque do Ibirapuera, e hoje sobrevive melancolicamente num site da internet. "Aliás, não apenas o acervo de Edu Chaves, mas toda a memória dos pioneiros da aviação brasileira, está lá, encaixotada", comenta Jaime, visivelmente emocionado.



Parque Edu Chaves



Na divisa entre São Paulo e Guarulhos, às margens da rodovia Fernão Dias e do rio Cabuçu, em 3 dezembro de 1924 começou a nascer um bairro. Sua malha viária se inspirou no desenho dos Champs-Elysées de Paris. Uma praça redonda, alamedas em círculos concêntricos e outras, radiais, espalhadas por quatro dezenas de quarteirões. Esse era o projeto inicial.



Mas o rio Cabuçu transbordava, a região se transformava num charco. Nas estiagens, servia de pastagem para uns poucos criadores de vacas da região. A área pertencia a Eduardo Pacheco Chaves. E ali, por quase dez anos, Edu tentou manter uma pista de vôo. Acabou desistindo, vendeu a área mas com a condição de que o comprador limpasse, saneasse e, sobre as terras, erigisse um núcleo habitacional. Edu não chegou a ver o parque que carrega seu nome, foi somente em 1953 que, financiadas pela Nossa Caixa,  surgiram as primeiras 300 residências, oferecidas a sargentos da Força Pública. Em 1991,no governo de Luiz Antônio Fleury Filho , o rio Cabuçu foi finalmente canalizado.