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Não sei a quem pertence a frase, mas gosto dela: “quando achamos que sabemos todas as respostas, vem a vida e muda as perguntas”.

Esta foi a eleição mais surpreendente que já vivemos. Tenho certeza.

Creio que os maiores derrotados destas eleições devem estar apavorados. Tiveram o seu fim decretado. Não mais lhes darão ouvidos. De alguma forma, talvez até sobrevivam, mas terão que se reinventar. E muito.

Acredito, portanto, que os grandes perdedores são os institutos de pesquisa. Erraram e feio, como vêm errando já há muito tempo. Não foram capazes de perceber que este pleito se deu em outra “faixa de onda”, que a informação circulava por outros meios.

Os institutos de pesquisa também não se atentaram que, boa parte dos eleitores que votavam nos extremos, por crença ou “utilitarismo”, de alguma forma não atendiam aos seus padrões de resposta de pesquisa. Ficaram numa situação delicada...

Outros derrotados são os políticos tradicionais, carreiristas, profissionais e seus clãs que usufruíram de privilégios e benesses da estrutura político-partidária-eleitoral por décadas e décadas. De esquerda, direita, centro, de todos os matizes políticos e ideológicos. Não importa.

Boa parte desses grupos políticos brasileiros não se reelegeu ou não conseguiu voltar, ainda que seus nomes ecoassem como líderes nas pesquisas – que também não conseguiram captar o clamor de mudança do eleitorado, em várias direções, estimulado por fontes de (des)informação bem fora dos padrões tradicionais. Surge com isso um legislativo com muitas novas caras, sem apresentar novidades.

Todavia, o grande desafio desta eleição (e que talvez não tenhamos condição de entender) foi como os dois grupos finalistas para a Presidência da República fizeram repercutir de modo distinto quem os apoiou. De um lado, o candidato mais conservador, da “extrama direita”, pareceu ser uma espécie de “Midas”. Todos que tocou viraram ouro nas eleições. Impressionante. Candidatos até então desconhecidos e sem nenhuma aproximação com a política, viraram autênticos fenômenos eleitorais.

De outro, o candidato da “esquerda”. Com quase todos os seus apoiadores regionais derrotados, posto que a grande maioria dos candidatos a governador do seu partido perderam de “lavada”, encontrou forças para ir ao segundo turno com votação quase duas ou três vezes maior que os mesmos.

Aliás, com votação quase 50% maior que média histórica do seu partido. Certamente, a estratégia de colar seu mentor à sua imagem mostrou-se eficaz. Decolou quando muitos o julgavam sem asas e depois da prisão do líder máximo da legenda.

Em verdade, a eleição presidencial, nesta primeira etapa, foi marcada pela vitória dos mitos. De um lado, alguém com tom sempre messiânico, que veio de baixo; de discurso fácil e que sempre tem resposta para tudo (ainda que a resposta esteja nos outros ou seja baseada numa mentira); cuja maior habilidade é conseguir se comunicar com as massas apostando nos seus medos.

Do outro lado, bem...do outro lado, o mesmo... Ambos são a mesma coisa vista na dinâmica do espelho, imagem reflexa e inversa de uma mesma perigosa coisa: a fragilização da democracia. Parecemos estar numa encruzilhada. Não estamos. Seguimos firmes para um mesmo desfecho.

Marcus Vinicius Ramos Gonçalves é presidente do grupo de estudos em comunicação da OAB-SP

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