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Uma Relação Tão Delicada, premiado livro de Domenica Ruta, em que descreve o convívio conturbado com a mãe, me faz pensar numa outra relação bem mais complexa e tóxica que a da escritora norte-americana: a que une sustentabilidade, alumínio e China. Para entender esse triângulo, vamos começar pelas pontas da sustentabilidade e do alumínio.

Ambos estão intimamente ligados. O alumínio pode ser infinitamente reutilizado sem jamais perder as suas características. Tal propriedade, e o investimento feito pela indústria do setor na cadeia da reciclagem, o transformaram no metal mais reaproveitado no mundo – o Brasil, por exemplo, é campeão mundial em reciclagem de latas de bebida. Cerca de três quartos de todo o alumínio produzido ainda está em circulação pelo mundo.

O alumínio é a base de dezenas de soluções sustentáveis: nos transportes, tornando os veículos mais leves e, portanto, diminuindo o gasto com combustível; nas construções, minorando o impacto ambiental e contribuindo na eficiência energética; nas embalagens, evitando o desperdício de alimentos e o uso de conservantes.

A transformação da bauxita em alumínio é eletrointensiva, ou seja, consome muita energia elétrica. E aqui chegamos à terceira ponta, a China. Trata-se do principal produtor do metal, responsável por mais da metade de todo o alumínio feito no mundo. E para o metal ser um ícone da sustentabilidade, necessita ser sustentável em todas as etapas de produção. Não é o que acontece na China.

Como o alumínio é eletrointensivo, sua pegada de carbono tem relação direta com a geração da energia elétrica empregada para produzi-lo. E a China tem uma das energias mais “sujas” do planeta. Quase a totalidade da energia elétrica usada para fazer alumínio vem da queima do carvão, o que faz com que o produto chinês tenha uma pegada de carbono seis vezes maior do que aquele produzido no Brasil – cuja matriz hidrelétrica é limpa.

Grande parte das usinas de energia chinesas são propriedade do governo, que também detêm o controle de três quartos das plantas de transformação de alumínio. Tais características estão por trás do crescimento vertiginoso da produção chinesa do metal e do seu preço imbatível. O alumínio chinês se beneficia de uma política de Estado, que subsidia o custo da energia elétrica e exclui algumas usinas a carvão de participar do esforço do País na redução das emissões de carbono.

Isso explica a escalada do alumínio chinês no mercado mundial. Mas, junto com o metal, a China exporta também CO2. Eis aí uma relação delicada, uma vez que o mercado se volta cada vez mais para produtos sustentáveis. Consumidores se mostram dispostos a pagar mais por produtos ecologicamente corretos, especialmente os jovens dos países desenvolvidos. Foi o que mostrou um estudo global da Nielsen. “Marcas que estabelecem uma reputação de gestão ambiental têm a oportunidade não apenas de aumentar a sua participação de mercado, como também construir lealdade entre os poderosos Millennials de amanhã”, explica Grace Farraj, vice-presidente da Nielsen. Em outras palavras, o futuro próximo é verde. Esse é um cenário inexorável e nele o alumínio brasileiro, devido ao seu caráter sustentável, pode e deve ocupar uma posição de destaque. O alumínio chinês está numa encruzilhada, envolto, literalmente, numa fumaça que pode se mostrar letal em pouco tempo.

gerson@pg1com.com