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A América Latina passou por décadas de um enraizamento da esquerda à frente do poder, e os líderes populistas desses países foram fazendo seus sucessores, fenômeno que ocorreu inclusive no Brasil, que foi sentindo a perda de sua liderança no cone sul, frente à passividade adotada. Ponto de ordem desse movimento foi a disseminação de uma cultura contra os EUA no cone sul, especialmente quando o país se mostrava mais aberto à críticas e autocríticas. Nos últimos cinco anos, contudo, o populismo foi perdendo potência justamente por conta da descapitalização dos países líderes, envolvidos em esquemas de fraudes e corrupção, que agora vêm à tona.

Tuas ideias não correspondem aos fatos, já cantava Cazuza. E foi isso que enfraqueceu cada vez mais o discurso populista, fortalecendo assim o ressurgimento de lideranças mais voltadas ao capitalismo e às políticas econômicas de mercado. Esse fortalecimento da centro-direita refletiu-se em um novo quadro na América Latina e construiu uma tendência de alinhamento dos países latinos aos EUA, agora sob a batuta totalmente capitalista de Donald Trump. E o elemento que faltava era a crise na Venezuela.

A Crise na Venezuela isolou de vez o populismo não só no continente, como também no Ocidente, demonstrando aos olhos do mundo um ditador que se segura no poder das armas e da intimidação para tentar segurar o povo venezuelano, que foge por todas as fronteiras físicas. E na fraude de sua reeleição, ignobilmente apoiada pela esquerda destituída do Brasil, o povo se insurgiu contra o resultado e o presidente da Assembléia, Juan Gauidó, passou a ser constitucionalmente o líder provisório do país. Acusado de golpista por Maduro, ele foi imediatamente reconhecido por EUA e Brasil, e posteriormente por mais de uma centena de países, com a desumana decisão de Maduro de fechar as porteiras e destruir a ajuda humanitária enviada por países contrários, e aceitando só ajuda de apoiadores como a Rússia, um tempero de guerra fria.

Sem tradição bélica ou militar, o Brasil declarou que apoia uma transição pacífica, enquanto os EUA tem feito sanções econômicas, que muito mais prejudicam o povo do que diretamente Maduro, na esperança que a situação se torne insustentável de um modo ou de outro. É uma grande oportunidade para o Brasil, sob diversos aspectos.

Com a economia brasileira fragilizada e refugando ante às dificuldades apresentadas pelo novo governo, o Brasil tem a oportunidade de tomar para si a liderança da situação frente ao Grupo de Lima, bloco de países das Américas formado em 2017 e que tem por objetivo estudar e auxiliar com a retomada da democracia na Venezuela. O Brasil poderia exercer essa liderança tanto militarmente como industrialmente. A primeira justificaria esse amplo aparato militar, que transborda dos quadros do governo atual sem nunca ter demonstrado sua razão de existir ou seus temerários privilégios. Já a segunda seria justamente uma habilidosa costura política, que poderia partir de ministros respeitados como Guedes e Moro junto ao Banco Mundial para que o Brasil fosse o principal fornecedor de produtos e serviços para o país fronteiriço tão logo fosse retomada a democracia, dando um estímulo ao crescimento industrial e de serviços tão esperado – e necessário ao Brasil, emulando o famoso Plano Marshall que ajudou a reconstruir a Europa, tornando os EUA a potência que é. Hora dos “Chicago Boys” mostrarem a que vieram.

 

 

Benedito Villela é gestor jurídico, professor e palestrante - falecomobene@gmail.com