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A chegada da primeira mulher negra à bancada do Jornal Nacional, principal telejornal do País, impulsionou o debate sobre diversidade e equidade nas organizações. Neste assunto tão complexo, tapar o sol com a peneira costuma ser uma reação comum. E não foi diferente com a conquista da jornalista Maria Julia Coutinho, a Maju. Houve quem tentasse diminuí-la, enfatizando que antes outros negros e outras mulheres já haviam ocupado aquele lugar. Alegou-se também que o fato não mudaria nada, afinal a discriminação contra mulheres e negros continuaria. Se tentavam ofuscar a força simbólica que o fato demonstrava, os argumentos não funcionaram. A repercussão do acontecimento, nas mídias sociais e nas conversas nos mostra o quanto o feito é importante.

Tentando fazer um paralelo, ser o âncora do JN talvez tenha o mesmo prestígio que os executivos atribuem a quem ocupa uma cadeira de CEO ou do conselho de administração de uma empresa. Posições do topo da hierarquia organizacional reservadas quase sempre a homens brancos. Segundo pesquisa de 2016 realizada com as 500 maiores empresas do Brasil, apenas 0,4% das posições de CEOs eram exercidas por mulheres negras. Essa realidade predomina nos anúncios publicitários, novelas, redações jornalísticas, congresso nacional, tribunais, hospitais e academia. Contrapostos a uma população com 54% de pretos e pardos e 52% de mulheres, temos clareza do tamanho da desigualdade que nos cerca. E isso importa. Imagine, que estamos recrutando CEOs – ou âncoras televisivos – em um grupo de pessoas que representa menos de 25% do total da população. Quantos profissionais fantásticos estamos deixando de (re) conhecer naqueles 75% da população que são excluídos?

Para mudar esta realidade precisamos admitir que há um problema estrutural. A desigualdade começa no acesso à educação. Dados do IBGE mostram que se apenas 23,8% dos jovens de 18 a 24 anos estão na universidade, a taxa entre negros (16,8%) é metade da verificada entre brancos (33,5%). Já a incidência do analfabetismo entre negros (9,9%) é o dobro da registrada entre brancos (4,2%). Mas as organizações reproduzem este quadro. A forma como recrutam, remuneram e promovem os profissionais também parecem marcadas pela desigualdade. Dados do Ministério do Trabalho e Emprego mostraram que, mesmo nas empresas em que negros predominam na força de trabalho, a incidência de brancos nos cargos de liderança é sempre maior. No setor de telemarketing três quartos dos operadores são negros, mas 53% dos supervisores são brancos. No quesito remuneração, dados da Fundação Seade indicam que no Estado de São Paulo, um homem negro recebia apenas 67% do vencimento de um branco. Quando considerado o grupo de mulheres negras, o rendimento ficava ainda menor, em 58%.

Aprendemos a achar normal homens brancos no topo das organizações. Agora, os dados descortinam isso e promovem a consciência. Desafios estruturais são difíceis de superar e a cooperação parece ser a estratégia. Duas ações merecem destaque: a Coalizão Empresarial pela Equidade Racial e o Movimento Mulher 360. Promovendo um olhar regional, a edição de 2019 do Fórum Internacional da RedEAmérica irá a Salvador, reunindo lideranças da América Latina e Caribe para discutir diversidade nas organizações. São iniciativas relevantes para compartilhar boas práticas para se tornar mais justo. Quando diversidade importa, todos ganham.

 

 

Rafael Gioielli é gerente geral do Institutto Votorantim - rafael.gioielli@institutovotorantim.org.br