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O Instituto Brasileiro de Direito e Ética Empresarial (IBDEE) completou três anos de existência. Buscamos neste tempo refletir sobre a cultura organizacional das empresas brasileiras e seu papel em um país com menos corrupção, além da criação de uma sociedade mais justa e sustentável.

Em 2018 realizamos a pesquisa Acordos de Colaboração 2018 – Percepção do empresariado sobre o tema e práticas adotadas. Constatamos neste estudo que 30% das empresas participantes já tiveram que se submeter à algum acordo de colaboração com órgãos do Poder Público. A pergunta que nos fazemos é por que as empresas brasileiras preferem não agir de acordo com as normas e com os princípios éticos que delas se espera.

Alguns fatores influenciam para que elas sigam praticando atos ilegais e de corrupção. O principal deles talvez seja o enorme tamanho do Estado brasileiro, que tudo regula e em tudo está presente, criando tantas barreiras para a atividade empresarial que o famoso “jeitinho brasileiro” acaba se tornando uma questão de sobrevivência.

Também merece destaque a cultura organizacional brasileira. Os empresários não corrompem, necessariamente, para ter mais lucro. Às vezes, fazem para não ter prejuízo, ou pior, porque não sabem fazer negócios de outra maneira.

Neste ponto nos confrontamos com uma questão central: a necessidade de conscientização do empresariado, que muitas vezes cegos diante de seus atos, são incapazes de reconhecê-los como antiéticos e vorazmente prejudiciais ao nosso país.

A Lei Anticorrupção muito veio a colaborar. Vigente há cinco anos, a norma tornou o compliance uma realidade nos negócios e um caminho sem volta. Uma empresa nacional não conseguirá contratar outra estrangeira se não tiver um programa de compliance e terá dificuldades para buscar recursos no mercado se não comprovar para bancos e investidores que tem uma governança adequada.

O compliance traz competitividade global e deve ganhar ainda mais espaço nos próximos anos no controle de riscos e na cultura das empresas. Corporações, investidores, mercado e sociedade só têm a ganhar. Dando indícios de que devem ajustar o prumo e seguir práticas internacionalmente recomendadas, alguns Estados brasileiros já passaram a exigir programas de compliance em contratações públicas.

Outro ponto sensível é a necessidade das empresas reverem a forma de mensuração de metas e incentivos dados aos seus executivos. Elas devem apostar no desenvolvimento de uma consciência moral coletiva, criando uma referência de que é possível dar certo fazendo a coisa certa, do jeito certo.

A frase do economista americano Milton Friedman de que “o negócio dos negócios são os negócios” parece já não adquirir esta forma tão simplória no espectro das companhias do século XXI. A autofagia obsoleta deu lugar ao sonho possível da sustentabilidade, seja ela ambiental, social ou financeira, que vem impactando diretamente na imagem e no lucro das empresas. Em outras palavras, o que se deve cobrar delas é que pertençam a algo maior.

O que podemos dizer categoricamente é que as empresas éticas valem mais. Parafraseando o melhor do pensador inglês John Stuart Mills, as empresas brasileiras devem mirar os resultados que trazem felicidade a um maior número de pessoas e não mais apenas ao próprio bolso.

 

 

Rodrigo Bertoccelli é presidente do Instituto Brasileiro de Direito e Ética Empresarial (Ibdee) - rodrigo.bertoccelli@ibdee.org.br