Publicado em

O ar ficou pesado. E não adianta brincar de faz de conta, porque a realidade exige atenção. Combustível, por exemplo, é a “cara” do que acontece no “espírito” do País. Janeiro e fevereiro foram bem, março começou a cair. Segundo a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) o mercado fechou o primeiro trimestre com alta de 1,7%. Mas, no terceiro mês do ano o consumo de combustíveis despencou 4% na comparação com março de 2018. As vendas de diesel caíram 5,6% em março para 4,55 bilhões de litros.

Não foi só na gasolina e diesel. A Pesquisa Mensal do Comércio (de 10/05) mostrou que a recuperação do varejo ficou mais fraca e menos generalizada porque perdeu força em março. E o IBGE já sinalizou que pode haver mais queda em abril. O banco Itaú já notou que o consumo das famílias subiu só 0,3% no PIB do primeiro trimestre, resultado tão fraco quanto o do período da greve dos caminhoneiros. Porque esta é a realidade, em março, a produção industrial caiu 2,2%, pior resultado desde 2016.

Não há dúvida que a retomada está lenta demais. Na referência de 8 trimestres desde o fim de ciclo recessivo é a pior recuperação da história das crises brasileiras. No acumulado de 2017 e 18 o PIB avançou 3,4%. Só para lembrar da mais grave crise, 81/83, nos dois anos seguintes o PIB subiu 11,4%.

Claro que há, também, a obrigatória discussão sobre crise fiscal e estagnação. Em artigo da Conjuntura Econômica deste abril, o professor Fernando de Holanda Barbosa, da FGV, mostrou que as crises fiscais, tantos nos 60 como nos 80, foram resolvidas com aumento de carga tributária. Entre 1956 e 64, a carga era de 16,9% do PIB. No período 1965/67 subiu para 21,7%. No período 1995/98, a carga era de 26,8% e subiu para 30,7% entre 1999/2002. O artigo reconhece que é impossível, até por restrição legal, cortar 2% dos gastos primários A saída é o aumento de 2% na carga tributária. Ninguém quer ouvir falar desse remédio tão amargo, mas História existe para ser pensada.

Mexer na Selic “para baixo” também pode estar no caminho para acelerar a retomada. O drama está no quando fazer isso. Os ortodoxos insistem que é melhor esperar a reforma da Previdência. Outros consideram que a situação das contas públicas não permite qualquer espera, repetindo que o gasto público não dá nenhum sinal de descontrole e que está na hora de um juro estrutural mais baixo.

Os dois discursos são coerentes. O problema real é que mesmo jogando a Selic para 5,5% até dezembro, o resultado pode não ser o esperado, porque as “correias de transmissão” desse corte, em um PIB em que 70% é serviço, são lentas. Mas, sem dúvida, será consistente ajuda, nessa conjuntura.

Seja como for, sobram evidências de que o País está parando de novo. Cabe ao Executivo cuidar disso. Sem jogar a culpa no jogo político que envolve a mais do que necessária reforma da Previdência. Esse jogo é o que é. Definir o futuro é mesmo tarefa lenta de quem faz as leis, no livre embate de todas as opiniões.

Porém, ficar esperando que a reforma da Previdência – que irá gerar frutos reais em no mínimo uma década – se revele suficiente para salvar pelo menos o próximo ano, é esquecer demais a máxima de que “no futuro estaremos todos mortos”. Até mesmo, porque a última coisa de que Lorde Keynes poderia ser acusado era de ingenuidade.

 

 

Leonardo Trevisan é professor de economia da Puc-SP e ESPM - ltrevisan@espm.br