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Escribas transcreviam livros e quando encontraram as prensas do Gutenberg talvez tenham ficado incrédulos e seguido a sua vida, mas aquela tecnologia acabou com o ofício deles.

Com a Indústria 4.0, que consiste na quarta revolução industrial baseada em tecnologias como automação, internet das coisas, dados e computação em nuvem, parte das fábricas nacionais podem estar na mesma situação. Este é um grande problema, porque a indústria de transformação contribui com R$ 1,2 trilhão para a economia brasileira, empregando 6,8 milhões de trabalhadores e o valor adicionado industrial é 54% maior do que na agricultura, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Em relação ao valor adicionado do setor de serviços, os números das fábricas são 70% maiores, aponta a entidade.

No Estado do Amazonas, o número é ainda maior, dada a concentração de unidades fabris e quantidade de produtos diferenciados fabricados na Zona Franca de Manaus, segundo estudos recentes da FGV.

Agora, há fortes (e bons!) presságios de uma abordagem liberal na gestão pública. Isso está na mente dos gestores, mas ainda não faz parte da execução do Estado, como se vê na implantação do Bloco K (SPED), com um controle intrometido sobre os empreendedores, possibilitando dissecar para onde vai cada insumo em um produto e qual o lucro em cada venda. Ótimo para estatizar companhias por lucros excessivos, ação tipicamente autoritária. Há ainda outros métodos de controle que limitam a liberdade, como os Processos Produtivos Básico (PPBs), que regulam setores em detalhes minuciosos. Desenvolver a Indústria 4.0 neste contexto é o desafio do momento, pois sem ela não haverá indústria nenhuma.

Na Europa, há uma preocupação crescente sobre como proteger a indústria. Em estudo de Hendrik S. Birkel e outros pesquisadores da região, publicado em janeiro, foi concebida estrutura para conter alguns riscos associados a Indústria 4.0 (Development of a Risk Framework for Industry 4.0 in theContext of Sustainability for Established Manufacturers). Precisamos tomar medidas para assegurar a preservação da indústria nacional, esmagada ao longo dos últimos anos. Não será bom repetir os erros cometidos durante o período em que o Fernando Collor de Mello governava o Brasil para que o país não volte a ser unicamente agrícola, pois o Produto Interno Bruto (PIB) industrial de 11,8% se assemelha aos níveis de 1950.

A base para a Indústria 4.0 brasileira está em Manaus. São apenas 3.302 indústrias, ou 0,64% do parque nacional, segundo o Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTI). Toda a produção é fortemente regulada e pode se beneficiar da liberação das amarras de PPBs e outras travas.

Mesmo com a maturidade a ser investigada, cerca de 63% da produção da região é do setor eletroeletrônico, informática e duas rodas (TVs, celulares, motocicletas e outros itens, segundo a Superintendência da Zona Franca de Manaus). Assim, precisaremos encontrar um método para mitigar os riscos e potencializar as oportunidades. Como assegurar a continuação desta indústria? Não dá para ter PPB, Bloco K e Liberalismo simultaneamente. É necessário uma rota próspera para as manufaturas já estabelecidas. Onde há indústria, devem existir cuidados, com liberalidade, irmã da competitividade. Entretanto, não podemos nos tornar escribas sem papel.

 

 

Augusto César Barreto Rocha é doutor em engenharia de produção e professor da Ufam - augusto@ufam.edu.br