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O conhecimento é algo mais amplo do que o conhecimento científico, englobando todas as crenças, as verdades pessoais e a cultura popular. Por sua vez, conhecimento científico é aquela limitada parte baseada no método científico.

Não se deve confundir verdade com ciência. Nem toda verdade é conhecimento científico. Por exemplo, individualmente, posso ter como crença que exista vida em outros planetas.

Isso pode até ser verdade, sem que se constitua em verdade científica, dado não atender aos pressupostos do método científico (observação, lógica e experimentação). A separação entre os mundos da religião e da ciência, a partir desse raciocínio, pode se dar de forma clara, respeitosa e indispensável.

A liberdade religiosa e a livre manifestação de ideias é um pressuposto inegociável dos tempos modernos. Felizmente, nossa sociedade garante espaços adequados, tanto para o exercício da fé como para sua divulgação aos interessados.

A ciência moderna do século XVII, ancorada na observação, lógica e experimentação, conforme sintetizado por Galileu Galilei e seus contemporâneos, somada às ferramentas da matemática, a exemplo do cálculo diferencial e integral de Isaac Newton, permitiram entender e conhecer melhor a natureza e desenvolver leis, tais como as leis da mecânica, da termodinâmica e do eletromagnetismo.

Foi a partir da ciência moderna que tecnologias e conhecimentos extraordinários foram desenvolvidos nos séculos seguintes, tendo a máquina a vapor e a Teoria da Evolução do naturalista Charles Robert Darwin (1809 -1882), e seus desdobramentos, como símbolos.

Graças a esses avanços fabulosos, foi possível que a expectativa de vida, que ao início do século passado era de pouco mais do que 40 anos, quase dobrasse nos dias atuais.

A Revolução Industrial, o desenvolvimento dos antibióticos, o saneamento básico, o conjunto de ferramentas tecnológicas e as novas visões de mundo colocadas ao nosso dispor representaram, graças ao método científico, enormes possibilidades de superarmos a fome, a miséria e as doenças.

O criacionismo, enquanto explicação para a origem da humanidade, diz respeito ao respeitável mundo da fé, jamais da ciência; o darwinismo e outras teorias científicas, por sua vez, pertencem ao espaço da ciência. Quando ouvimos sugestões de que em aulas de ciências se ensine, em pé de igualdade, as duas visões, criacionismo e darwinismo, estamos atropelando todas as conquistas e saudáveis distinções que marcam o processo civilizatório contemporâneo.

Abrem-se as portas para inaceitável obscurantismo, cujos limites, se cruzados, custarão caro para, posteriormente, tentarmos recuperar os danos causados.

Um dos papéis principais da educação nos tempos atuais envolve preparar um cidadão capaz de entender, de forma emancipada, o mundo à sua volta. Para tanto, é necessário desenvolver raciocínios lógicos amparados em métodos científicos, a busca do contraditório e o estímulo do espírito crítico, bem como ter capacidade analítica apurada, estar preparado para a aprendizagem permanente ao longo de toda a vida e ser tolerante, flexível e solidário.

Sem domínio e clareza acerca do método, certamente, não disporemos de profissionais para alavancar um desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável.

Ronaldo Mota é chanceler da Estácio 

ronaldo.mota@estacio.br