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Ninguém ficou muito surpreso. Na prática, foi só mais uma evidencia. Quinta-feira passada o IBGE divulgou o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15, prévia oficial da inflação de agosto. Pois bem, o IPCA-15 desacelerou para 0,08%, bem pouco abaixo do 0,09% de julho. É o menor índice desde agosto 2010, quando avançou 0,05%. A explicação está no acelerado recuo do preço dos alimentos consumidos em casa, ou seja, sem serviço em restaurantes. Porque o regime de chuva foi bom, o preço dos produtos alimentares recuou no total 0,45% ante julho. O mercado esperava recuo do IPCA em agosto, mas não tão acelerado. Aliás, o erro na previsão foi forte. Nem energia, com bandeira vermelha, levou a inflação para cima.

Os departamentos de Economia dos bancos já se conformaram com a trajetória de desaceleração da inflação. O do Itaú sinaliza que para outubro a inflação anualizada deve bater em 2,7%, algo distante da meta de 4,25%. O ano deve fechar em 3,6%, com muita sorte. Bem longe da meta, portanto.

O motivo de tão bom comportamento da inflação é a “ociosidade da economia” além da própria inércia inflacionária. Nenhuma novidade nisso. Mas, o sumiço da inflação, afinal, quer dizer algo?

Existe expectativa de alguma recuperação dos investimentos no segundo trimestre. A ser confirmada quando o IBGE divulgar o PIB de abril a junho e afastar, ou confirmar, o risco de recessão técnica já instalada.

Porém, quem olha para o cenário externo, insiste na pergunta dramática: mesmo se alguma recuperação de investimento já aconteceu, ela vai durar para, efetivamente, devolver ocupação para 12,8 milhões de desempregados?

Esse é o ponto. A decisão de Trump de agravar as tarifas para os chineses na semana passada e a resposta de Pequim, sinalizam: a guerra comercial avança. A velocidade da corrida no mundo para a segurança do dólar, que a inversão da curva dos juros americanos demonstra, também assusta. O rendimento do título do Tesouro americano de dez anos caiu abaixo do retorno do papel de dois anos, fato que sinaliza (como aconteceu nas últimas sete recessões) que outra “paradeira” no mundo está bem a vista. Com reflexos aqui.

Parece indiscutível que a essência do problema está na lenta recuperação da economia brasileira. O que é melhor? Deixar tudo na mesma toada e deixar as esperanças para depois do próximo Carnaval, como fazemos há alguns Carnavais?

Até no mundo da ortodoxia econômica já apareceu opinião, das mais autorizadas, discutindo o rumo das coisas. Samuel Pessôa, pesquisador do IBRE/FGV, defendeu que o governo faça pacote de estímulo ao investimento, via obras públicas, limitado a 0,5% do PIB. O que mais importa na proposta é ter sido feita, por quem a fez. É notória evidência de que a recuperação está lenta demais. Pessôa reconheceu que amigos ficaram chateados, mas a “excepcionalidade da situação” exigia. Motivo: “falamos da recuperação mais lenta dos últimos 120 anos”. Parece claro, depois do IPCA-15 de agosto, que algo precisa ser feito para que a retomada, enfim, aconteça. Deixar tudo por conta das “reformas” no Congresso (todas necessárias) é esperar muitos outros Carnavais. Resta saber o quanto mais a inflação, até a dos alimentos, vai recuar. Até a paciência, dos que sempre têm muita paciência, tem limite. Até ortodoxos já notaram a evidência.

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